A declaração de Anke Rehlinger, ministra-presidente do Sarre e candidata do SPD nas eleições federais de 2026, caiu como uma bomba no debate político alemão. Em publicação nas redes sociais, a social-democrata afirmou que as reformas propostas pela coalizão de centro-direita “são, em primeiro lugar, listas de cortes”. A frase, carregada de tom eleitoral, ecoa a ansiedade de uma população que vê o Estado alemão definhar sob o peso de uma dívida pública que ultrapassou 2,6 trilhões de euros.
O contexto imediato é o pacote de ajuste fiscal apresentado pelo chanceler Friedrich Merz, que prevê reduzir subsídios sociais, congelar contratações públicas e simplificar a previdência. Para Rehlinger, a agenda é “uma punição aos mais vulneráveis”. Mas os números contam outra história: o PIB alemão encolheu 0,2% em 2025, a inflação teima em não ceder e o setor manufatureiro perde competitividade diante de custos energéticos elevados — agravados pela desistência nuclear.
A fala de Rehlinger revela mais do que retórica partidária; expõe a falência do modelo estatista que o SPD ajudou a construir. Durante os 16 anos de Angela Merkel, as reformas da Agenda 2010 foram parcialmente revertidas, e o país mergulhou numa cultura de subsídios que beneficia quem não precisa. A ministra do Sarre, ao defender “investimento em infraestrutura e educação”, ignora que tais gastos já existem — mas são drenados por uma máquina pública ineficiente e por uma burocracia que consome 10% do orçamento federal.
O que está em jogo não é se os cortes são dolorosos, mas se a Alemanha pode se dar ao luxo de não fazê-los. A dívida pública alemã equivale a 66% do PIB, e os juros anuais já consomem 40 bilhões de euros — mais do que o orçamento do Ministério da Defesa. Cada euro gasto em juros é um euro não investido em inovação, segurança ou redução de impostos. Nesse cenário, as “listas de cortes” de Rehlinger não são um ataque, mas uma necessidade matemática.
A liberalização, contudo, não pode parar no corte. O erro de Berlim historicamente foi tratar o ajuste como fim, não como meio. Países como a Suíça e a Irlanda demonstram que é possível reduzir o Estado e, simultaneamente, estimular o crescimento via desregulamentação e redução da carga tributária. A Alemanha, que amarga a maior carga fiscal da OCDE (39% do PIB), precisa de uma terapia de choque: cortar impostos sobre renda e empresas, privatizar estatais como a Deutsche Bahn e a Telekom, e eliminar subsídios distorcivos, como o abono familiar universal.
O contra-ataque de Rehlinger, e de parte da esquerda alemã, se baseia no medo: o medo de que a austeridade gere desemprego e instabilidade social. Mas a história recente desmente essa tese. A própria Alemanha, em 2010, sob a liderança de Angela Merkel, impôs um pacote de austeridade de 80 bilhões de euros — e o país cresceu, reduziu o desemprego a níveis mínimos e se tornou a locomotiva europeia. O fracasso atual não é das reformas, mas da sua ausência.
A eleição de 2026, portanto, não é um pleito comum. É um referendo sobre o tamanho do Estado. Rehlinger, ao pintar as reformas como “cortes” — um termo pejorativo —, tenta mobilizar a base do eleitorado que vive de transferências. Mas a maioria dos alemães, cansada de impostos crescentes e serviços públicos medíocres, pode ver nas “listas de cortes” uma oportunidade de liberdade. O liberalismo econômico, tão difamado, nunca esteve tão em voga.
Enquanto isso, os mercados observam com ceticismo. O spread dos títulos alemães (Bund) já subiu 20 pontos-base desde o anúncio das reformas, refletindo o risco de que a coalizão recue diante da pressão social. A chanceler Merz, no entanto, sinalizou que não recuará: em discurso ao Bundestag, afirmou que “a coragem de cortar é a virtude dos fortes”. Resta saber se os alemães terão a mesma coragem nas urnas.
A verdade incômoda é que a Alemanha não está sozinha. Toda a Europa ocidental enfrenta o mesmo dilema: envelhecimento populacional, imigração descontrolada e competitividade em queda. Mas a Alemanha, por ser a maior economia do bloco, tem a responsabilidade de liderar pelo exemplo. Se as reformas de Merz forem aprovadas, o país pode emergir mais ágil e próspero. Se falharem, o declínio será lento, mas inexorável.
A declaração de Rehlinger, ironicamente, pode ter o efeito oposto ao desejado: ao escancarar o que está em jogo, ela pode despertar o eleitorado liberal que, até então, estava adormecido. A direita alemã, representada pela CDU/CSU e pela FDP, tem a oportunidade de apresentar uma alternativa positiva — não de cortar por cortar, mas de reformar para libertar. O futuro da Alemanha, e da Europa, depende disso.
Neste cenário, a FORTIS NEWS enxerga uma janela de ouro para o liberalismo. Não se trata de celebrar a dor, mas de reconhecer que o Estado de bem-estar social, como concebido no pós-guerra, tornou-se uma âncora para o progresso. A saída não é a demagogia de “proteger os vulneráveis”, mas a criação de uma rede de segurança eficiente e, acima de tudo, a promoção de um ambiente onde o empreendedorismo floresça. As “listas de cortes”, se acompanhadas de reformas estruturais, podem ser a base de um novo milagre alemão.
O debate, portanto, não é sobre cortar ou não cortar. É sobre como a Alemanha quer se posicionar no século XXI: como uma economia estagnada, presa ao passado, ou como um farol de liberdade e inovação. A resposta, caro leitor, estará nas urnas em setembro de 2026. E a FORTIS NEWS estará lá, fiscalizando e cobrando coerência.
A economia alemã, que já foi a locomotiva do mundo, agora pede socorro. E a resposta não virá de mais Estado, mas de mais liberdade. Que os alemães tenham a sabedoria de escolher o caminho certo.
Por Renan Filho · 2026-09-21