O chanceler alemão Friedrich Merz, em declaração oficial ao Bundestag nesta quinta-feira, apresentou o que chama de "Reformpolitik" — um pacote de medidas para reativar a economia alemã, a maior da Europa, que há três anos patina em recessão técnica. Pela primeira vez desde a era Gerhard Schröder, um líder alemão ousa tocar nos pilares intocáveis do modelo social: aposentadorias, subsídios industriais e a rigidez do mercado de trabalho.
O anúncio, feito em discurso transmitido ao vivo pela Deutsche Welle, inclui cortes progressivos de subsídios a setores considerados "estratégicos" — como a indústria automotiva e a química — e a flexibilização da jornada de trabalho em setores de alta tecnologia. Merz também propôs um teto para o aumento automático de benefícios sociais, atrelado à inflação, mas com cláusula de revisão em caso de desemprego estrutural.
O contexto é de emergência. O PIB alemão encolheu 0,3% no segundo trimestre de 2026, segundo dados do Destatis, e o índice de confiança empresarial do Ifo atingiu o menor nível desde a crise financeira de 2008. A indústria, que responde por 24% do valor adicionado alemão, enfrenta custos energéticos 40% superiores aos dos EUA, conforme estudo do Instituto de Economia de Colônia.
A pressão sobre Merz não vem apenas do eleitorado, mas da própria coalizão. A ala esquerda do SPD, parceira no governo, já ameaça obstruir a votação da reforma da previdência. "Não vamos sacrificar os aposentados no altar da competitividade", afirmou o ministro do Trabalho, Hubertus Heil, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk. É a velha política impedindo o novo — e Merz sabe que, sem o SPD, não há maioria.
Por que isso importa: a Alemanha não é apenas a locomotiva europeia; é o modelo que o resto do continente tenta imitar. Se Berlim falhar em reformar, a zona do euro inteira continuará refém de um banco central que imprime dinheiro para financiar estados falidos, enquanto a competitividade alemã se dissolve. O liberalismo econômico, que parecia morto na Europa, encontra em Merz um paladino improvável — mas a batalha está apenas começando.
A análise FORTIS, contudo, é cética quanto à profundidade do pacote. As medidas anunciadas ainda dependem de uma engenharia fiscal complicada, e o teto para benefícios sociais, na prática, apenas reduz o ritmo de crescimento — não congela gastos. O verdadeiro teste será a desregulamentação do setor de serviços, que permanece intocada, e a reforma do sistema de saúde, que consome 11,7% do PIB alemão, segundo a OMS.
Há também a questão política: Merz, que assumiu após a queda de Olaf Scholz em 2025, precisa sobreviver a um voto de confiança em dezembro. Se as reformas passarem, será a primeira vez desde a Agenda 2010 que um governo alemão consegue impor perdas reais a setores organizados. E se falharem, o país pode entrar em uma espiral de estagnação que arrastará toda a Europa para a mediocridade econômica.
O contraponto vem da esquerda e dos sindicatos: a Confederação Alemã de Sindicatos (DGB) divulgou nota afirmando que "flexibilizar a jornada é precarizar o trabalhador" e que "cortar subsídios na transição energética é sabotar o futuro". Há um argumento legítimo: a Alemanha precisa de investimento público em infraestrutura digital, não apenas de cortes. Mas a resposta liberal é clara — o setor privado, liberado do jugo burocrático, investe melhor que qualquer ministério.
A Reformpolitik de Merz é um teste de fogo para o liberalismo na Europa. Se ele conseguir impor as mudanças, o continente terá um novo norte. Se falhar, a Alemanha se tornará o maior exemplo de como o estado de bem-estar social, sem reformas, transforma potências industriais em museus a céu aberto.
Por Renan Filho · 2026-09-22