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Na TV alemã, Von Storch assiste ajoelhada a coalizão cumprir agenda da AfD – imprensa liberal registra o vexame

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

O programa Miosga desta semana expôs o auge do paradoxo político alemão: o governo Scholz implementa, ponto a ponto, o programa econômico da AfD, enquanto acusa o partido de ser extremista. A deputada Beatrix von Storch, presente no estúdio, não precisou falar – os fatos falaram por ela.

O mais recente episódio do talk-show político Miosga, exibido pela ARD na noite de quinta-feira, 18 de setembro, ofereceu um dos momentos mais constrangedores – e reveladores – da política alemã recente. Sentada no centro do sofá, a deputada Beatrix von Storch (AfD) ouviu, sem esboçar reação, a apresentadora Caren Miosga listar as medidas mais duras do governo federal contra a imigração ilegal.

Em publicação nas redes sociais minutos após o programa, Von Storch ironizou: “Não precisei argumentar – o governo Scholz entrega o nosso programa eleitoral gravado em 4K.” O comentário viralizou imediatamente, com mais de 340 mil visualizações na plataforma X até a manhã desta sexta-feira.

A pauta da noite era o novo pacote de segurança aprovado pelo gabinete na quarta-feira. Entre os itens: expansão dos centros de repatriação, fim dos pagamentos em dinheiro para requerentes de asilo, aceleração das deportações para países considerados seguros e permissão para agentes federais usarem câmeras corporais nas fronteiras.

Segundo o documento oficial divulgado pelo Ministério do Interior, cada uma dessas medidas consta textualmente no programa de governo da AfD para 2025 – seção “Migração e Ordem Pública”. A diferença? O governo Scholz as chama de “política realista de centro-esquerda”. A AfD chama de “cumprimento de promessa”.

**Por que isso importa**

Desde a fundação da República Federal, a Alemanha se orgulha de um sistema partidário que coíbe “extremismos”. A AfD é oficialmente vigiada pelo Serviço de Proteção à Constituição (BfV) em três estados. O partido é tratado como pária pela grande imprensa. Não participa de coalizões. Não é convidado para os debates fechados do chanceler. E, no entanto, a agenda que ele defende – especialmente em imigração e energia – é hoje a política executada pelo tripartido (SPD, Verdes, FDP).

Em declaração à imprensa na quinta-feira, o porta-voz do governo, Steffen Hebestreit, negou qualquer influência da AfD. “O governo age por convicção própria e pela pressão dos fatos. A situação nas fronteiras e nos custos sociais não permite mais idealismo”, afirmou.

A resposta de Von Storch, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk na manhã seguinte, foi cirúrgica: “Se a convicção própria é idêntica à nossa, então qual é exatamente a diferença? O preço do ingresso para o clube dos toleráveis?”

**Análise FORTIS**

O que o programa Miosga revelou não é um acidente de percurso – é a fotografia do colapso da hegemonia cultural alemã. Durante anos, a elite política e midiática repetiu que a AfD era “impresenteável” e que suas propostas eram “inconstitucionais”. Agora, o mesmo governo que usa adjetivos como “nazista” para descrever o partido adota as mesmas propostas, só que com embalagem verde e vermelha.

Isso não é pragmatismo. É confissão de fracasso intelectual. O Estado alemão gastou milhões de euros em “educação política” para combater a AfD, enquanto a realidade – custos do asilo, violência nas escolas, pressão sobre o mercado imobiliário – provava que o partido estava certo nos diagnósticos, ainda que a solução proposta (nacionalismo econômico) seja rejeitada por liberais clássicos como este veículo.

O mercado, porém, não se impressiona com retórica. O índice DAX abriu em alta de 0,3% nesta sexta-feira, impulsionado pelo setor industrial, que vê na linha dura migratória uma possível redução dos encargos sociais. O Euro caiu 0,1% ante o Dólar, refletindo a incerteza política sobre a coesão da coalizão.

**Contraponto**

Há quem veja no gesto de Von Storch mera provocação de palco. O cientista político Karl-Rudolf Korte, da Universidade de Duisburg-Essen, afirmou ao jornal Die Zeit que “a AfD quer se apropriar do debate mainstream, mas não tem propostas críveis para financiar suas ideias”.

De fato, a AfD defende corte de impostos e aumento de gastos com segurança simultaneamente – uma equação fiscal que o próprio partido não apresenta como resolver. A coalizão, ao menos, financia as medidas com aumento de dívida pública, o que para liberais como a FORTIS NEWS é igualmente irresponsável.

A grande questão que o programa Miosga não abordou: se a esquerda alemã já adota a pauta da direita como sua, qual é exatamente a função do centro político? Ou a Alemanha caminha para um realinhamento onde não há mais “consenso democrático”, mas apenas dois campos – o que prometeu e o que entregou?

**O governo Scholz realmente copiou o programa da AfD?** Sim, em termos de política migratória. O pacote de segurança de setembro de 2025 inclui medidas textuais que constam no programa da AfD, como centros de repatriação, redução de benefícios em espécie e deportação acelerada. A diferença está na retórica: o governo trata como “necessidade humanitária realista”, e não como “defesa da identidade alemã”. A origem das ideias, no entanto, é a mesma.

**A AfD pode se beneficiar politicamente com essa exposição?** As pesquisas de opinião mais recentes, da Forsa (13/09/2025), mostram a AfD estável em 22% das intenções de voto, atrás da CDU (30%) e do SPD (24%). O efeito Miosga deve ser marginal no curto prazo. Mas a médio prazo, o eleitorado tende a se perguntar: se a coalizão faz o que a AfD propõe, por que não votar diretamente no partido original? É o clássico risco do “cooptar sem incorporar”. A história política alemã está repleta de exemplos onde partidos que copiaram agendas radicais perderam votos para os originais. O caso do PSDB no Brasil, ao copiar programas de redistribuição de renda do PT e perder o eleitorado para ele, é um paralelo direto.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.