A CDU amargou uma das piores votações de sua história recente nos pleitos estaduais realizados no último domingo na Alemanha. Em estados como Brandemburgo, Saxônia e Turíngia, a sigla perdeu entre 5% e 8% dos votos em relação à eleição anterior, segundo dados preliminares divulgados pela emissora pública ARD. O partido ficou atrás não só da SPD, mas também da AfD e, em algumas regiões, da aliança de esquerda Die Linke.
Em coletiva de imprensa realizada na sede da CDU em Berlim, Friedrich Merz não escondeu a insatisfação. "Estes resultados são um desastre para todos que acreditam em uma Alemanha próspera e livre. Mas não será com recuos ideológicos que reverteremos essa tendência", declarou o líder partidário, conforme trecho reproduzido pelo jornal Bild. Merz afirmou que a resposta aos eleitores deve ser ainda mais clareza nas reformas estruturais, e não o abandono delas.
O contexto é de uma economia alemã em dificuldades. O PIB encolheu 0,3% no último trimestre, a inflação permanece teimosamente acima de 3% e o setor industrial perde competitividade diante dos subsídios americanos e chineses. A CDU, sob a liderança de Merz, havia proposto um pacote de reformas liberalizantes — redução de impostos corporativos, desburocratização, reforma da previdência e abertura do mercado de trabalho. No entanto, essas propostas encontraram forte resistência dos sindicatos e da ala mais à esquerda do próprio partido.
POR QUE ISSO IMPORTA?
A Alemanha é a maior economia da Europa e o motor do bloco. Se o país continuar a patinar, as consequências serão sentidas em toda a Zona do Euro. A insistência de Merz em reformas liberais é um sinal de que ainda há forças dispostas a enfrentar o status quo estatista. Para investidores e empreendedores, a sinalização de que a CDU não se curvará ao populismo fiscal é crucial. Caso contrário, o risco é de uma guinada para o protecionismo ou para o gasto público desenfreado, como já defedem alas do SPD e dos Verdes.
ANÁLISE FORTIS
O resultado eleitoral não é uma rejeição às reformas, mas sim uma prova de que elas ainda não foram implementadas com a devida convicão. O eleitor alemão, frustrado com a imigração descontrolada e a perda de poder aquisitivo, buscou alternativas radicais. A AfD cresceu justamente por prometer o que a CDU não cumpre: firmeza na segurãnça, controle de fronteiras e defesa da identidade cultural. Merz, ao insistir nas reformas econômicas, está fazendo a aposta correta: o liberalismo econômico, quando associado ao conservadorismo social, é a única via capaz de reconquistar o eleitorado que migrou para os extremos.
No entanto, a FORTIS alerta: a comunicação do partido precisa ser mais assertiva. Em vez de se desculpar por querer reduzir o Estado, Merz deveria explicar como a liberdade econômica gera empregos e prosperidade para todos. Não se vende reforma com discurso tímido. É preciso mostrar que o Estado inchado é o verdadeiro inimigo do cidadão comum.
CONTRAPONTO
Críticos dentro da própria CDU, como o ex-ministro da Saúde Jens Spahn, pedem uma viragem à esquerda nas questões sociais e mais gasto público em infraestrutura. "Não podemos continuar falando de cortes quando os eleitores querem mais investimento em escolas e transporte", disse Spahn em entrevista à Rádio Deutschlandfunk. Já o instituto Forsa divulgou pesquisa mostrando que 62% dos eleitores da CDU consideram a pauta econômica a mais importante, mas 48% acham que o partido não comunica bem suas propostas.
Por Renan Filho · 2026-09-21