Friedrich Merz, o outrora paladino da ala liberal da CDU, parece ter descoberto um novo norte: o estômago. Em um giro de retórica que surpreende até os mais céticos, o chanceler alemão passou a defender uma agenda de 'justiça social' que mais parece um manual de intervencionismo estatal, com preços de energia subsidiados, taxação de grandes fortunas e um salário mínimo que desafia a lógica econômica. A pergunta que fica é: o que aconteceu com o defensor da economia social de mercado? A resposta, talvez, esteja menos na ideologia e mais na sobrevivência política.
Em declaração à imprensa na última terça-feira, Merz justificou as novas medidas como necessárias para 'corrigir distorções históricas' e 'proteger o cidadão comum'. O discurso, recheado de acenos às classes trabalhadoras do leste alemão, tenta emplacar a narrativa de que o mercado, sozinho, falhou. Mas os números contam outra história: a Alemanha já enfrenta uma desaceleração industrial severa, com o setor automotivo, a espinha dorsal do país, perdendo terreno para a concorrência chinesa. Em vez de reduzir a carga tributária e desregulamentar, o novo governo opta por uma intervenção que promete encarecer ainda mais o custo de fazer negócios.
A pauta da 'justiça' virou um guarda-chuva para esconder a ausência de reformas estruturais. O aumento do salário mínimo, por exemplo, pode parecer atraente no papel, mas na prática elevará os custos trabalhistas para as pequenas e médias empresas, que já sofrem com a escassez de mão de obra qualificada. Segundo dados do Instituto Ifo, a inflação de serviços na Alemanha permanece teimosa em 3,5%, e a alta forçada dos rendimentos tende a pressionar ainda mais os preços, criando um ciclo vicioso de perda de poder de compra. O estômago de Merz, ao que parece, está mais para um buraco negro fiscal do que para uma bússola de prosperidade.
Por que isso importa? Porque a Alemanha é a locomotiva da Zona do Euro, e qualquer erro de cálculo de Berlim reverbera diretamente no bolso do contribuinte brasileiro, que já lida com uma economia travada e juros altos. Se a maior economia europeia ceder ao canto da sereia do protecionismo e da redistribuição, o comércio global sofrerá um baque, e países emergentes como o Brasil sentirão na pele a redução da demanda por commodities. O liberalismo econômico, que já foi a bandeira da direita alemã, agora é tratado como artigo de luxo, um conceito ultrapassado para os novos tempos.
A análise da FORTIS é direta: o que estamos testemunhando é uma rendição estratégica ao eleitorado, não uma convicção ideológica. Merz, que em 2021 discursava sobre a 'responsabilidade fiscal' como pilar da CDU, agora adota uma linguagem que poderia ser assinada pela ala mais à esquerda do SPD. A coalizão com os sociais-democratas, forjada às pressas após as eleições, cobra seu preço, e o chanceler parece disposto a sacrificar décadas de ortodoxia alemã no altar da governabilidade. O resultado é um coquetel perigoso de estatismo, com regulações que estrangulam a inovação e uma política energética que mantém o país refém do carvão, enquanto desmonta a energia nuclear.
É claro que há quem defenda as medidas. O ministro da Economia, Robert Habeck, em publicação nas redes sociais, chamou a nova diretriz de 'um passo corajoso para um futuro mais justo', ignorando o fato de que a Alemanha já é campeã em impostos sobre a renda. A esquerda local, órfã de uma liderança forte, vê na guinada merkeliana uma oportunidade de reabilitação. No entanto, a realidade é que a 'justiça' pregada por Berlim é seletiva: enquanto o Estado incha, o cidadão que trabalha e produz é tratado como fonte inesgotável de recursos. O contraponto, que a imprensa liberal insiste em levantar, é que a saída para a crise alemã não está em distribuir riqueza que ainda não foi criada, mas em destravar o potencial produtivo, com menos burocracia e mais incentivos ao capital.
No fim, a sensação é de que o estômago de Merz escolheu o pior momento para roncar. A Alemanha, que já foi o farol da disciplina fiscal europeia, agora se curva ao populismo, e o mundo assiste a mais um capítulo da decadência ocidental. A FORTIS, como sempre, permanece vigilante, defendendo que a verdadeira justiça só pode existir onde há liberdade econômica e respeito à propriedade privada. O futuro dirá se o povo alemão, que já sofreu demais com utopias, terá a sabedoria de voltar ao caminho da razão antes que seja tarde demais.
Por Renan Filho · 2026-09-22