A expressão alemã “Wir sitzen in der Tinte” (estamos na tinta, enrascados) nunca foi tão precisa para descrever o momento de Friedrich Merz. O presidente da União Democrata-Cristã (CDU) e líder da oposição no Bundestag tenta desesperadamente cavar um espaço entre a ruína fiscal da coalizão de Olaf Scholz e a ascensão do populismo de esquerda e direita. Em publicação nas redes sociais na última quinta-feira, Merz escreveu: “A Alemanha não pode mais esperar. Precisamos de um choque de credibilidade.” A frase, porém, ecoa o desespero de quem vê o barco afundar sem remos.
O cenário é conhecido: a economia alemã encolheu 0,3% no segundo trimestre de 2026, segundo o Destatis. A produção industrial, sobretudo do setor automotivo e químico, amarga o sexto mês consecutivo de queda. O índice Ifo de clima de negócios despencou para 83,2 pontos, o menor desde a crise de 2008. E, em meio a esse desastre, Merz se vê encurralado entre a necessidade de cortar gastos e a pressão por subsídios bilionários para “salvar” empresas quebradas pelo próprio Estado.
Por que isso importa? Porque a Alemanha sempre foi o baluarte da disciplina fiscal e do livre mercado na Europa. Hoje, o país que ostentava a “schwarze Null” (déficit zero) acumula uma dívida pública de 72% do PIB, com projeção de ultrapassar 80% em 2027. Em declaração à imprensa nesta semana, o ministro das Finanças, Christian Lindner (FDP), admitiu que “o teto da dívida não é mais suficiente para cobrir as obrigações correntes”. Ou seja, o Estado inchou a tal ponto que nem mesmo o endividamento desenfreado consegue tapar o rombo.
A análise FORTIS aponta um dilema clássico: a social-democracia alemã, travestida de “economia social de mercado”, sempre dependeu de intervenções cirúrgicas. Mas a coalizão “semáforo” (SPD, Verdes, FDP) transformou a cirurgia em autópsia. Subsídios para energia verde, programas de renda básica e nacionalizações disfarçadas de “participações estatais” destruíram os incentivos ao empreendedorismo. Merz, que outrora defendia cortes de impostos e desregulamentação, hoje propõe um “fundo de transformação” de 500 bilhões de euros, em clara contradição com os princípios liberais que a CDU diz representar.
Contraponto: há quem veja em Merz o mal menor. Em entrevista à rádio Deutschlandfunk, o economista Lars Feld, do Conselho de Sábios Econômicos, afirmou que “sem uma intervenção coordenada, a Alemanha pode enfrentar uma recessão estrutural semelhante à do Japão nos anos 1990”. Feld argumenta que o pacote de Merz é uma “medida de emergência” para evitar o colapso do setor automotivo. O problema é que o remédio se tornou a doença: cada novo programa de socorro estatal gera mais dependência e menos inovação.
O liberalismo alemão, representado pelo FDP, perdeu o rumo. Christian Lindner, que deveria ser o guardião das finanças, aceitou a flexibilização do teto da dívida em troca de cargos. Em nota oficial do partido, o FDP justifica que “a situação excepcional exige medidas excepcionais”. Exceção que virou regra. E a conta chega para quem produz: as pequenas e médias empresas (Mittelstand), que empregam 60% da força de trabalho, enfrentam juros altos, burocracia crescente e uma carga tributária que já ultrapassa 48% do lucro.
Enquanto isso, a imigração descontrolada e as políticas de integração fracassadas pressionam ainda mais os cofres públicos. O número de solicitantes de asilo subiu 35% em 2025, e apenas 18% conseguiram emprego formal, segundo o Escritório Federal de Migração. Merz, em discurso no Bundestag, criticou a “política de portas abertas” de Scholz, mas não apresentou nenhum plano concreto de redução de gastos sociais. Ficou no campo da retórica.
O cenário é de emparedamento. Se Merz apoia mais intervenção, trai o liberalismo. Se corta gastos, é acusado de insensibilidade social e perde votos para a Alternativa para a Alemanha (AfD), que já marca 22% nas pesquisas. Em declaração ao jornal Bild, um assessor próximo a Merz, que pediu anonimato, afirmou que “estamos em um beco sem saída. Qualquer decisão será politicamente custosa”. E assim, a Alemanha senta na tinta, sem saber como sair.
Para o liberalismo de verdade, a lição é dura: quando o Estado se torna o maior empregador, o maior investidor e o maior fiador, a liberdade econômica se transforma em ficção. A Alemanha de Merz é o espelho de um ocidente que trocou o risco do empreendedorismo pela segurança ilusória do Estado-pai. E o resultado está aí: estagnação, dívida e desesperança.
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Por Renan Filho · 2026-09-20