As eleições regionais deste domingo na Alemanha produziram um terremoto silencioso. Em Berlim, a candidata do partido A Esquerda (Die Linke), Elif Eralp, obteve 27,4% dos votos, segundo dados oficiais da comissão eleitoral divulgados na noite de sábado. O resultado coloca o partido mais à esquerda do espectro alemão à frente do SPD (21,1%) e da CDU (18,6%).
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o cenário é ainda mais tenso. A primeira-ministra social-democrata Manuela Schwesig, que lidera o estado desde 2017, ficou com 23,8% dos votos, atrás da Alternativa para a Alemanha (AfD), que alcançou 24,1%. Embora a diferença seja de apenas 0,3 ponto percentual, o dado simboliza a primeira vez que um partido de extrema direita supera o SPD em um Land do leste desde a reunificação.
**Contexto: o que está por trás dos números**
Berlim sempre foi um bastião da esquerda, mas a vitória de Eralp surpreendeu pela magnitude. Em publicação nas redes sociais, a candidata celebrou o resultado como “uma vitória da justiça social contra a especulação imobiliária e a gentrificação”. O Die Linke capitalizou o descontentamento com o aumento dos aluguéis e a precarização dos serviços públicos na capital, prometendo congelamento de rendas e estatização de grandes imobiliárias.
Já em Mecklemburgo-Pomerânia, a AfD surfou a onda do desemprego estrutural e da percepção de abandono do governo federal. Em declaração à imprensa local, o líder regional da AfD, Nikolaus Kramer, afirmou que “o eleitorado finalmente rejeitou o establishment de Berlim”. Schwesig, por sua vez, minimizou a diferença e destacou que o SPD ainda pode governar com uma coalizão de esquerda (CDU e Verdes), já que a AfD não tem aliados.
**Por que isso importa para o liberalismo e para o Brasil**
O avanço do Die Linke em Berlim é um alerta para a Europa: políticas de controle de preços e estatização ganham força quando o mercado imobiliário é sufocado por regulações e impostos. A esquerda radical propõe exatamente o oposto do que liberais defendem — liberdade contratual, desregulamentação e incentivos à oferta. A vitória de Eralp mostra que, na ausência de reformas pró-mercado, o eleitor busca soluções autoritárias de esquerda.
Por outro lado, o empate técnico entre SPD e AfD em Mecklemburgo-Pomerânia revela o fracasso do modelo social-democrata de bem-estar sem crescimento. A região, com um dos maiores índices de desemprego da Alemanha, viu a AfD quadruplicar sua representação desde 2016. Liberais clássicos reconhecem que o protecionismo econômico e a imigração descontrolada alimentam o populismo de direita.
**Análise FORTIS: o colapso do centro**
Para quem defende mercados abertos e responsabilidade fiscal, o cenário é preocupante. O bipartidarismo SPD-CDU, que governou a Alemanha por décadas, está desmoronando. Em Berlim, a soma dos dois partidos tradicionais mal chega a 40%. Em Mecklemburgo-Pomerânia, a CDU ficou com 17,2% — seu pior resultado histórico no estado.
A fragmentação força coalizões instáveis. O Die Linke já sinalizou que só aceitará governar com partidos que apoiem a expropriação de imóveis. A AfD, isolada, não será chamada para governar, mas seu crescimento pressiona o SPD a adotar posturas mais duras em imigração e segurança. O resultado é um jogo de soma zero onde o liberalismo econômico perde espaço.
**Contraponto: a visão dos vencedores**
Elif Eralp, em coletiva de imprensa, defendeu que “o povo de Berlim escolheu o caminho da solidariedade, não do lucro”. Já Manuela Schwesig, em entrevista à rádio NDR, afirmou que “a diferença de 0,3% não muda o fato de que o SPD é a única força capaz de formar governo estável”. Ambas ignoram o elefante na sala: a insatisfação com o status quo está levando eleitores para os extremos, não para o centro reformista.
O liberalismo clássico precisa oferecer uma alternativa crível: menos Estado, mais liberdade econômica, reforma tributária e abertura comercial. Enquanto isso não acontecer, Alemanha e Europa continuarão a ver o crescimento de partidos que prometem soluções mágicas — seja à esquerda ou à direita.
**1. O Die Linke realmente pode governar Berlim sozinho?** Não. Com 27,4%, precisará de coalizão. As opções mais prováveis são uma aliança com SPD e Verdes (já testada em outros estados) ou com a CDU, mas a CDU rejeita a agenda de expropriações. Caso não haja acordo, novas eleições podem ocorrer em seis meses.
**2. A AfD pode assumir o governo de Mecklemburgo-Pomerânia?** Dificilmente. Todos os demais partidos (SPD, CDU, Verdes, Linke) descartam qualquer coalizão com a AfD. Schwesig deve tentar reeditar a “grande coalizão” SPD-CDU ou uma aliança com Verdes e FDP. A AfD continuará na oposição, mas com força para bloquear projetos e pautar o debate público.
Por Renan Filho · 2026-09-20