A CDU, o partido de Angela Merkel e Konrad Adenauer, vive sua mais profunda crise existencial desde a fundação da República Federal. Nas três eleições estaduais realizadas em setembro de 2024 nos estados do leste alemão — Saxônia, Turíngia e Brandemburgo — a sigla amargou resultados pífios, ficando atrás da Alternativa para a Alemanha (AfD) e, em alguns casos, até da esquerda radical de Sahra Wagenknecht. Na Saxônia, a CDU obteve 31,9% dos votos, uma queda de quase 10 pontos percentuais em relação a 2019, segundo dados oficiais da comissão eleitoral estadual. Na Turíngia, o partido despencou para 23,6%, perdendo o posto de segunda força para a AfD, que alcançou 33,4%. Em Brandemburgo, a CDU registrou apenas 12,2%, o pior resultado da história no estado.
O que explica esse colapso? Para analistas liberais, a resposta é clara: a CDU deixou de ser um partido de centro-direita. Durante os 16 anos de Merkel, a legenda adotou políticas de esquerda em áreas-chave: abriu as fronteiras para imigração em massa em 2015, abraçou o intervencionismo climático com o “Energiewende” e expandiu o Estado de bem-estar social a níveis insustentáveis. A guinada para o centro, que Merkel chamava de “pragmatismo”, afastou o eleitorado conservador e liberal clássico. Friedrich Merz, eleito presidente da CDU em 2022 com a promessa de restaurar a identidade do partido, não conseguiu reverter a maré. Em entrevista à Rádio Deutschlandfunk em outubro de 2024, Merz admitiu que “a CDU precisa reconquistar a confiança dos eleitores que se sentem abandonados”, mas não apresentou propostas concretas de reforma econômica ou migratória.
**Por que isso importa** O declínio da CDU não é apenas um problema interno alemão. A Alemanha é a locomotiva econômica da Europa, e a ausência de uma centro-direita forte e liberal enfraquece o equilíbrio político no continente. Sem um partido que defenda a disciplina fiscal, a redução de impostos e a liberdade de mercado, o caminho fica aberto para forças populistas de ambos os lados. A AfD, que hoje lidera as pesquisas nacionais com cerca de 22%, segundo o instituto Infratest dimap, capitaliza o descontentamento com a imigração e a burocracia, mas seu programa econômico é vagamente protecionista e estatista. Já a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), que estreou com dois dígitos na Turíngia, propõe um misto de nacionalismo de esquerda e controle estatal. O resultado é um vácuo liberal que nenhum partido parece disposto a preencher.
**Análise FORTIS** A CDU cometeu o erro fatal de acreditar que poderia competir com a esquerda no próprio terreno. Ao adotar o discurso ambientalista radical — apoiando o fechamento de usinas nucleares e a aceleração das metas de carbono — o partido alienou o eleitorado industrial e rural. Ao mesmo tempo, ao manter a retórica de “bem-vindo aos refugiados” mesmo após os atentados de 2016, perdeu a confiança dos conservadores sociais. O resultado é um partido que não é mais confiável para liberais nem para conservadores. Merz, que em 2021 ainda defendia cortes de impostos e desregulamentação, hoje evita o tema. Em nota oficial divulgada após as eleições de Brandemburgo, a CDU afirmou que “precisa dialogar com os eleitores sobre segurança e imigração”, mas silenciou sobre reformas de mercado. O liberalismo econômico foi varrido para debaixo do tapete.
**Contraponto** Há quem argumente que a CDU ainda é o maior partido de centro-direita da Europa e que os resultados no leste não refletem a força da sigla no oeste — onde, de fato, a CDU lidera em estados como Baden-Württemberg e Hessen. O cientista político da Universidade de Mainz, Jürgen Falter, em artigo no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, sustenta que “a CDU ainda tem um eleitorado fiel entre os mais velhos e os católicos praticantes”. No entanto, os números mostram que mesmo no oeste a legenda perdeu votos para os Verdes e para o FDP (Partido Liberal) nas últimas eleições federais de 2021. O declínio é nacional, não regional. A diferença é que no leste, onde a memória do socialismo ainda é recente, a rejeição à esquerda é mais forte — e a CDU falhou em capitalizar isso.
O cenário é preocupante para quem acredita no liberalismo como força política. Sem uma CDU renovada, a Alemanha caminha para uma polarização entre populismo de direita e estatismo de esquerda, ambos igualmente hostis à liberdade econômica. As próximas eleições federais, previstas para 2025, serão o teste definitivo. Se a CDU não mudar de rumo, o partido de Adenauer pode se tornar uma sigla irrelevante no leste e medíocre no oeste. O liberalismo alemão precisa de um novo lar.
Por Renan Filho · 2026-09-21