Berlim, Alemanha – O que era impensável há uma década tornou-se manchete: a União Democrata-Cristã (CDU) e sua irmã bávara, a CSU, estão sendo tratadas como peças de museu no tabuleiro político alemão. O fenômeno, apelidado de 'Kanzlerdämmerung' (crepúsculo do chanceler), não é apenas sobre a queda de Olaf Scholz – é sobre o colapso silencioso de um partido que abraçou o 'status quo' enquanto a Alemanha afundava em burocracia, impostos e desindustrialização. Em pesquisa recente do instituto INSA para o jornal Bild, a União amarga apenas 29% das intenções de voto, um número estável, mas longe da maioria confortável que teve em 2021, quando alcançou 32%. O problema não é a falta de candidato – é a falta de ideias.
Os democratas-cristãos, que governaram o país por 16 anos sob Angela Merkel, agora pagam o preço de uma herança política que os liberais sempre denunciaram: a 'agenda da transformação' que estatizou a energia, inchou a previdência e engessou o mercado de trabalho. Em vez de cortar o imposto sobre a renda das empresas, a União defendeu o 'debt brake' (freio da dívida) com unhas e dentes, mas se curvou ao aumento do gasto público em 2023, quando o Tribunal Constitucional derrubou o fundo especial de 60 bilhões de euros. O resultado? A coalizão 'Ampel' (SPD, Verdes e FDP) implodiu, mas a União não apresentou nenhum plano alternativo – apenas críticas vazias.
O ápice da irrelevância veio em setembro de 2026, quando o partido, em convenção nacional em Hamburgo, optou por uma linha 'conservadora pragmática' que não convence ninguém. O líder Friedrich Merz, em discurso transmitido ao vivo pela ZDF, tentou endurecer o discurso migratório, mas recuou diante das alianças com a esquerda. Em vez de propor a redução do Estado, Merz defendeu 'mais investimento público em infraestrutura digital' – uma frase que poderia ter sido dita por um social-democrata. A base liberal, que sonha com a 'Agenda 2010' de Schröder, mas com alma de mercado, está órfã. Pesquisa da Fundação Friedrich Naumann, ligada ao FDP, revela que 38% dos eleitores da União consideram votar na Alternativa para a Alemanha (AfD) ou no partido liberal clássico, o FDP, nas próximas eleições federais de outubro.
Por que isso importa para a Alemanha e para a Europa? A União sempre foi o pilar de estabilidade do continente, o partido que segurava o bastião do orçamento equilibrado e da liderança franco-alemã. Sem uma CDU forte, o eixo de Berlim perde força diante do populismo de esquerda de Sahra Wagenknecht e do radicalismo de direita. Mas o colapso da União é sintoma, não causa. A Alemanha quebra recordes de exportação, mas também de custos energéticos – o preço da eletricidade para a indústria é 30% maior que na França, segundo o Ministério da Economia. As empresas médias, o 'Mittelstand', estão migrando para os EUA e Ásia, onde a burocracia é menor e os incentivos fiscais são reais. A União, em vez de lutar por cortes de impostos, prefere culpar os 'fatores externos' como a guerra na Ucrânia.
A análise da FORTIS é direta: a União perdeu o bonde da história porque abandonou o liberalismo econômico que a tornou hegemônica nos anos 2000. Sob Merkel, o partido virou uma 'social-democracia light', com o 'Ordnungspolitik' (política de ordem) transformado em mantra vazio. O 'subsídio do carro elétrico' foi uma afronta ao livre mercado, e o 'fim da energia nuclear' um erro que custou bilhões. O eleitor liberal percebeu que a CDU não defende o contribuinte, mas o Estado. O FDP, com seu programa de redução de carga tributária e cortes de gastos, tornou-se a única voz racional, mas ainda é pequeno demais. A AfD, por sua vez, rouba votos com discurso de proteção da identidade, mas sem soluções de mercado.
Contudo, é preciso ser justo: a União ainda tem a maior base eleitoral da Alemanha, e os institutos de pesquisa podem falhar como em 2015, quando a crise migratória foi subestimada. O cenário mais provável é uma grande coalizão pós-eleição, com a CDU como parceira júnior do SPD, repetindo o erro de 2013. Mas isso não salvará o partido – apenas adiará o inevitável. Em uma economia onde o PIB encolheu 0,3% em 2025, segundo o Destatis, a Alemanha precisa de reformas estruturais, não de 'gestão de crise'. A União, com sua máquina de clientelismo, tornou-se ente dispensável. Se não abraçar o liberalismo de verdade – privatização da Deutsche Bahn, corte de 50% do imposto de renda corporativo, fim do imposto sobre herança –, será reduzida a um partido de nicho em menos de uma década. O 'Kanzlerdämmerung' não é o fim do SPD; é o fim da era de ouro da CDU.
Em contraponto, defensores da União argumentam que o partido é o único capaz de manter a coesão social e evitar a radicalização. Lembram que foi Merkel quem salvou a Europa em 2015 ao abrir as fronteiras, e que o 'modelo alemão' de parceria entre capital e trabalho é admirado no mundo. Um porta-voz da CDU, em declaração à imprensa, afirmou que 'a União é o único partido com experiência de governo', e que 'as pesquisas são uma fotografia, não um filme'. De fato, a história mostra que a CDU se recuperou de crises anteriores, como o caso das doações ilegais de Kohl. Mas essas defesas ignoram o fato de que, sem um choque de liberdade, a Alemanha continuará engessada. O eleitor não quer mais 'estabilidade' – quer prosperidade, e ela só virá com menos Estado.
**1. A União CDU/CSU pode realmente desaparecer do mapa político alemão?** Não no curto prazo, mas a tendência é de erosão. A história mostra que partidos 'pega-tudo' (catch-all) perdem espaço quando a economia estagna. Se a CDU não mudar seu programa para defender cortes de impostos e desregulamentação – como o FDP propõe –, pode cair para 20% nas próximas eleições, tornando-se um partido de coalizão, mas nunca mais o 'partido do chanceler'. A ascensão da AfD, que atrai eleitores conservadores, e do BSW, que rouba votos da esquerda, fragmenta o sistema e exige alianças que diluem o poder da União.
**2. Qual a alternativa liberal real para a Alemanha?** O FDP, com seu líder Christian Lindner, é a voz mais coerente, mas está preso ao pragmatismo de coalizão. Uma alternativa mais ousada seria a criação de um movimento cívico liberal, nos moldes do partido 'Liberal' de Javier Milei na Argentina, que una a defesa da liberdade econômica a uma agenda de segurança pública e reforma do Estado. Os dados mostram que 44% dos alemães entre 18 e 34 anos apoiam a redução do tamanho do governo, segundo o estudo 'Jugend in Deutschland 2026'. Falta apenas um líder que transforme essa insatisfação em voto. Enquanto isso, a União continuará sendo o 'partido do não' – mas sem um 'sim' ao futuro, seu ocaso é inevitável.
Por Renan Filho · 2026-09-21