Um documento interno da Alternativa para a Alemanha (AfD), obtido pelo jornal Bild am Sonntag e corroborado por fontes do partido, expõe em detalhes a estratégia da sigla para um cenário que, até poucos meses atrás, parecia improvável: uma minoria da União (CDU/CSU) no governo federal. O papel, intitulado “Handlungsoptionen bei einer Minderheitsregierung” (Opções de Ação para um Governo Minoritário), circula desde agosto entre os 80 deputados da AfD no Bundestag. Ele não defende a tomada do poder — mas sim a arte de torná-lo inviável sem concessões profundas.
O cenário não é mais ficção. Desde que as pesquisas eleitorais de setembro mostram a CDU/CSU estagnada nos 28% e o SPD despencando para 15%, a possibilidade de uma coalizão bipartidária (União + Verdes ou União + FDP) não fecha a maioria absoluta. Em paralelo, a AfD se consolida como segunda força, com 20% das intenções de voto. Para qualquer liberal que preze por governabilidade, o documento da AfD é um alerta vermelho sobre como a extrema-direita pode usar o Parlamento para impor uma agenda contrária ao livre mercado.
O documento lista três eixos principais. Primeiro, a “cooptação seletiva”: a AfD apoiaria projetos de lei da União que estejam alinhados à sua plataforma — como o endurecimento da política migratória, a redução de impostos sobre heranças e o congelamento do salário mínimo. Em contrapartida, bloquearia qualquer iniciativa que toque em temas tabu para o partido, como a integração europeia ou a manutenção de sanções contra a Rússia. Segundo, a “chantagem legislativa”: a AfD condicionaria o apoio a votações pontuais à aprovação de pautas próprias, como a saída da Alemanha da União Europeia (Dexit) ou o fim do visto humanitário para refugiados sírios. Terceiro, a “campanha permanente de desgaste”: o partido usaria cada sessão plenária para convocar moções de censura simbólicas e pedidos de comissão parlamentar de inquérito contra ministros da União.
Por que isso importa para um liberal? Porque o plano da AfD não é de oposição responsável — é de ocupação do vácuo de poder. Uma minoria da União, sem maioria no Bundestag, precisaria negociar a cada votação. O documento deixa claro que a AfD não formaria coalizão formal, mas trabalharia como “sócio de ocasião”. Isso significa que a agenda de reformas estruturais — como a liberalização do mercado de trabalho, a redução da burocracia para startups e a privatização de estatais como a Deutsche Bahn — ficaria refém de um partido que defende o protecionismo econômico e o controle estatal sobre setores estratégicos. Em resumo: o liberalismo de mercado seria trocado por um nacionalismo econômico de ocasião.
Na análise FORTIS, o que está em jogo é a credibilidade das instituições alemãs. A AfD, ao se apresentar como única alternativa real de poder, força a União a um dilema: ou negocia com a extrema-direita e quebra o cordão sanitário estabelecido desde 1945, ou tenta governar com os verdes e o SPD em uma coalizão ampliada — o que, para a base conservadora da União, equivaleria a uma traição. Para o mercado, a incerteza é desastrosa. Empresários alemães, em reuniões recentes da Federação das Indústrias Alemãs (BDI), já manifestaram preocupação com a possibilidade de um governo fraco e sem direção. A Bolsa de Frankfurt, que reagiu positivamente à possibilidade de uma vitória da União, pode ter de digerir meses de paralisia legislativa.
Contraponto necessário: nem todos veem o documento como ameaça. Para o cientista político Werner Patzelt, em artigo na FAZ, a AfD pode ser “domesticada” pelo jogo parlamentar. Ele argumenta que partidos radicais, ao serem forçados a negociar, tendem a moderar seu discurso e perder militância. O problema é que a história recente — da Hungria à Polônia — mostra que, quando partidos populistas entram na sala de máquinas do Estado, eles não consertam o motor — eles o sequestram. Para o liberal, o melhor caminho continua sendo o da reforma eleitoral que elimine o sistema de representação proporcional e permita maiorias estáveis. Enquanto isso não acontece, o documento da AfD é um lembrete de que a liberdade econômica não sobrevive sem instituições fortes.
Por Renan Filho · 2026-09-22