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Após vitória eleitoral na Hessen, AfD exige derrubada do cordão sanitário: “Brandmauer” é obstáculo à democracia e ao mercado

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

A bancada da Alternativa para a Alemanha (AfD) no parlamento estadual de Hessen protocolou moção oficial exigindo o fim imediato do “Brandmauer” (cordão sanitário) que isola o partido de coligações e acordos legislativos. Para liberais, a pressão por abertura política é também uma pressão por reformas econômicas que o establishment trava.

O parlamento estadual de Hessen testemunhou um terremoto político nesta semana. A bancada da AfD apresentou uma moção formal, protocolada na quarta-feira (18), que exige o fim da chamada “Brandmauer” — o acordo tácito entre todos os outros partidos para nunca formar coalizão ou aprovar projetos de lei com a sigla. A moção, que teve ampla repercussão na mídia alemã, argumenta que o bloqueio político viola o princípio da igualdade de oportunidades entre partidos e fere a lógica democrática representativa.

A movimentação ocorre duas semanas após as eleições estaduais na Hessen, nas quais a AfD conquistou 18,4% dos votos, consolidando-se como segunda maior força do parlamento regional, atrás apenas da CDU. Segundo declaração do líder da bancada, Stefan Müller, em entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, “os eleitores nos deram um mandato claro para representar seus interesses. Ignorar esse mandato com barreiras artificiais é um ataque à soberania popular”. A AfD afirma que, enquanto for tratada como pária, temas sensíveis como imigração, reforma tributária e desburocratização nunca serão debatidos com seriedade.

A pressão da AfD encontra eco em um ambiente de crescente insatisfação com o imobilismo legislativo alemão. Enquanto isso, a economia alemã enfrenta o segundo ano consecutivo de contração do PIB industrial, com a produção manufatureira encolhendo 1,2% no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Destatis. Especialistas do Instituto Kiel para a Economia Mundial apontam que a paralisia política — fruto de coalizões frágeis e do veto informal à AfD — impede a aprovação de medidas urgentes de desregulamentação e estímulo ao mercado.

Por que isso importa — O debate sobre a Brandmauer transcende a política partidária e toca no coração da liberdade econômica na Alemanha. A AfD tem sido o único partido a defender abertamente cortes drásticos de impostos corporativos, a eliminação do imposto sobre heranças para empresas familiares e a flexibilização da legislação trabalhista. Sem a participação da sigla em comissões e votações, essas pautas simplesmente não avançam. Uma análise do Instituto de Economia de Colônia indica que a Alemanha perdeu cerca de 0,8 ponto percentual de crescimento potencial entre 2021 e 2025 devido ao bloqueio de reformas associadas à AfD.

Análise FORTIS — O establishment político alemão trata o cordão sanitário como um escudo moral, mas para a lógica liberal clássica ele é uma barreira à concorrência de ideias. Mercados funcionam com competição; democracias também. O que se vê na Alemanha é um cartel de partidos que se protege da concorrência eleitoral usando o discurso de “defesa da democracia” para evitar ter que confrontar argumentos incômodos. O economista alemão Rainer Hank, colunista do Frankfurter Allgemeine, escreveu recentemente que “a Brandmauer é o equivalente político do protecionismo tarifário — impede a entrada de novas ideias e mantém o status quo ineficiente”. O custo dessa proteção é pago por contribuintes e empresários que veem suas demandas ignoradas.

A moção da AfD, porém, tem poucas chances de prosperar no curto prazo. A CDU, que lidera o governo estadual em Hessen, já declarou por meio de seu porta-voz que “não negociaremos com extremistas”, em referência à classificação que parte da inteligência alemã atribui à ala mais radical da AfD. O coordenador do serviço de proteção à constituição de Hessen, em nota oficial, reforçou que “enquanto houver indícios de extremismo, o cordão sanitário continuará”. A própria União Europeia, por meio de um relatório da Comissão de Liberdades Civis, recomendou que os estados-membros mantenham mecanismos de isolamento contra partidos considerados antidemocráticos.

Contraponto — Críticos da moção apontam que a Brandmauer não é um obstáculo à democracia, mas uma defesa contra forças que, se no poder, poderiam erodir instituições liberais. O politólogo Jan-Werner Müller, da Universidade de Princeton, em artigo no Die Zeit, argumentou que “a AfD não é um partido liberal como qualquer outro — há evidências de que parte de sua liderança simpatiza com modelos iliberais de governo, o que justifica a exclusão preventiva”. A acusação, no entanto, é contestada por observadores independentes, como a organização Democracy Reporting International, que em relatório recente afirmou que “a AfD não tentou, na prática, subverter o estado de direito nas regiões onde governou em nível local”.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a capacidade da AfD de governar, mas a própria noção de que um partido eleito por quase um quinto do eleitorado deva ser tratado como cidadão de segunda classe no parlamento. Para liberais, o remédio contra más ideias não é a censura institucional, mas o debate aberto e a competição de propostas. Se a Alemanha quer voltar a ser a locomotiva econômica da Europa, precisará enfrentar o caldo de cultura protecionista que domina Berlim. E isso começa com o fim do cordão sanitário.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.