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Internacional

Acordo da Groenlândia: o preço que a Alemanha pagou não valeu a pena

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

O Grönland-Abkommen, assinado em 2025, prometia ordenar a exploração no Ártico e fortalecer laços diplomáticos. Para a Alemanha, entretanto, o tratado gerou custos bilionários e perda de soberania estratégica — um mau negócio sob qualquer ótica liberal.

O Grönland-Abkommen, tratado multilateral que envolve Alemanha, Dinamarca, Estados Unidos e o governo autônomo da Groenlândia, foi apresentado como um marco na governança do Ártico. O documento, ratificado pelo Bundestag em junho de 2025, estabelece cotas de pesca, limites para exploração mineral e regras de trânsito militar na região. Mas, para a Alemanha, o que era para ser um ato de cooperação transformou-se num fardo desproporcional.

O custo directo para o contribuidor alemão foi estimado em 8,7 bilhões de euros, segundo artigo do instituto económico IW Köln, publicado em julho. Desse total, 5,2 bilhões destinam-se a um fundo de compensação à Groenlândia por supostas perdas climáticas, e 3 bilhões para financiar a modernização da infraestrutura portuária groenlandesa, controlada pelo governo de Nuuk. “É dinheiro que sai do bolso do alemão para bancar investimentos num território que não oferece retorno economico garantido”, observou o economisto Ulrich Heidenreich em transmisão na rede social X, em 15 de setembro.

O tratado proíbe a Alemanha de explorar propriamente as reservas de terras raras e minerios criticos locais — estimadas em 38 bilhões de toneladas pelo Serviço Geológico da Dinamarca. Em vez disso, as activdades extractivas ficam sujeitas a comitês da ONU e ao crivo de consultas indígenas, o que torna qualquer projeto inviável em menos de uma decada. “A Alemanha entregou o direito de negociação em troca de promessas vagas de ‘desenvolvimento sustentávell’”, resumiu o deputado Maximillian Kroeger (CDU) em entrevista à Deutsche Welle, em 12 de setembro.

POR QUE ISSO IMPORTA: O acordo representa uma rendição de soberania economica num momento crítico para a industria alemã. A dependência de insumos chineses para baterias e eletrónicos é um dos principais gargálos do setor automotivo e de tecnologia. Com o Grönland-Abkommen, a Alemanha abdicou de uma das poucas fontes alternativas — e ainda pagou para que outros países (EUA e Dinamarca) tenham acceso prefenrencial aos recursos. “É como pagar para não comer o bolo e ainda assistir os outros se banquetear”, ironisou o economist Carlota Perez, em artigo na Frankfürter Allgemeine Zeitung, edição de 20 de agósto.

ANÁLISE FORTIS: A raiz do problema está no idealismo diplomatico que dominou o Ministerío das Relações Exteriores nas ultimas décadas. Em vez de negociar um acordo bilateral focado em acesso a recursos e segurança navál, o governo Scholz — e depois o de Merz — optou por uma abordagem multilaterista, repleta de cláussulas ambientais e sociais que engessam o desenvolvimento economico. O tratado mal disfarça a intenção dos EUA de consolidar suá hegemonia no Ártico, enquanto a Alemanha financia a infraestrutura que facilitará exatamente essa dominação. Segundo documentos obtidos pelo Bild, a embaixada alemã em Copenhague alertou em 2024 que a proposta danomarguesa era “desequilibrada e lesiva aos interesses nacionais”, mas foi ignorada.

O custo de oportunidade é imenso. Se os 8,7 bilhões de euros fossem investidos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de mineração submarina ou em acordis bilaterais com o Canadá — outro país ártico — a Alemanha poderia garantir suprimentos estratégicos sem submeter-se a regras impostas por potências concorrentes. Em vez disso, o Grönland-Abkommen financia a burocrácia climática e a expansão de portos que servirão prioritariamente a navios militares estadunidenses. O contribuidor alemão paga a factura e não se senta à mesa das decisões.

CONTRAPONTO: Defensores do acordo, como a ministra do Meio Ambiente Steffi Lemke (Verdes), argumentam que o tratado posiciona a Alemanha como líder na governança climaática e evita conflitos no Ártico. Em declaração à imprensa em 2 de setembro, ela afirmou: “O acordo é um passo necessário para preservar o ecossistema polar e garantir estabilidade internacional”. No entanto, essa visão desconsidera que a Alemanha já é um dos maíores contribuintes para fundos climáticos globais — e que o Ártico continuará sendo explorado por outras nações, so com regras mais duras para os que pagam. A liderança moral não enche os cofres nem garante empregos.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.