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Politica

O Espectro da Minoria: Berlim Treme com Possibilidade de Governo Sem Maioria

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Rumores nos corredores do Bundestag apontam que, após o fracasso das negociações de coalizão, a Alemanha pode enfrentar um governo minoritário liderado por Friedrich Merz. O cenário acende alertas nos mercados e reacende o debate sobre governabilidade e disciplina fiscal.

A palavra da vez em Berlim é Minderheitsregierung. O espectro de um governo minoritário, antes tratado como tabu, agora domina as conversas de bastidores desde que as tentativas de formar uma coalizão entre CDU/CSU, SPD e Verdes naufragaram na semana passada. Segundo fontes do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, o chanceler em exercício, Friedrich Merz, teria dito a aliados que ‘todas as opções estão sobre a mesa’.

O impasse começou nas eleições de setembro de 2025, quando a CDU/CSU obteve 32% dos votos, insuficiente para governar sozinha. O SPD (18%) e os Verdes (16%) recusaram uma reedição da Große Koalition, enquanto o FDP (11%) exigiu cortes de gastos que os Verdes consideraram inaceitáveis. A AfD, com 20%, foi descartada por todos os partidos tradicionais. Resta, portanto, a hipótese de Merz comandar um gabinete minoritário, dependendo de aprovações pontuais no Parlamento.

Por que isso importa? Porque a Alemanha não é apenas a maior economia da Europa; é o pilar da estabilidade monetária e fiscal do continente. Um governo que precisa negociar cada voto com a oposição tende a gerar paralisia legislativa. Para investidores, isso significa incerteza sobre reformas estruturais, como a redução da burocracia e a modernização do sistema tributário — pautas caras ao eleitorado liberal.

A análise da FORTIS é direta: um governo minoritário pode ser, paradoxalmente, a melhor saída liberal disponível. Diferentemente de coalizões amplas que costumam produzir compromissos diluídos e gastos excessivos — como a Große Koalition que elevou a dívida pública a 70% do PIB —, um governo sem maioria força a aprovação de leis por mérito, não por acordo partidário. Cada medida precisa convencer deputados individualmente, o que tende a favorecer políticas mais enxutas e focadas em resultados. É o que defendem economistas como Clemens Fuest, presidente do Instituto Ifo, em artigo recente no Handelsblatt: ‘A ausência de uma coalizão pode ser uma bênção disfarçada, se os partidos se dispuserem a votar caso a caso’.

Mas há um contraponto que não pode ser ignorado. Críticos, como o cientista político Ursula Münch, da Universidade de Munique, alertam que, sem uma base estável, o governo se tornará refém de partidos radicais. A AfD já sinalizou, em declaração à emissora pública ARD, que apoiaria medidas de endurecimento migratório em troca de concessões orçamentárias. Já a Esquerda (Die Linke) exige investimentos públicos massivos. ‘Merz teria que dançar conforme a música de dois extremos, e isso não é governança, é improviso perigoso’, afirmou Münch em entrevista à Deutschlandfunk. O risco de eleições antecipadas, com fortalecimento ainda maior da AfD, é real.

No fim, o debate resume-se a uma escolha entre o caos controlado de um governo minoritário e a estagnação de uma coalizão inchada. Enquanto Merz tenta formar um ‘gabinete de especialistas’ com apoio do FDP e de dissidentes do SPD, os mercados oscilam. Na sexta-feira, o índice DAX caiu 1,2% diante da indefinição. A chanceler de fato, a economia alemã, exige respostas rápidas.

A Alemanha já viveu breves períodos de governo minoritário, como durante a crise dos mísseis nos anos 1980 sob Helmut Schmidt. Mas o cenário atual é mais complexo: fragmentação partidária, crescente populismo e uma economia que perdeu competitividade. Para os liberais, o remédio amargo de um governo minoritário pode ser o único capaz de quebrar o ciclo de gastos e regulamentações que sufocam o livre mercado. Resta saber se Berlim terá a coragem de engoli-lo.

**1. O que exatamente é um governo minoritário na Alemanha?** É um gabinete que não detém a maioria dos assentos no Bundestag (Parlamento). Para aprovar leis, precisa negociar apoio ad hoc com outros partidos, caso a caso. Na Alemanha, é raro no nível federal, mas comum em alguns estados, como na Renânia do Norte-Vestfália, onde o SPD governou com apoio dos Verdes entre 2010 e 2012.

**2. Quais os riscos econômicos de um governo minoritário alemão?** O principal risco é a paralisia reformista. Sem maioria estável, medidas tributárias, de desregulamentação ou de ajuste fiscal podem ser bloqueadas ou adiadas. Isso gera incerteza para investidores, que podem adiar decisões de investimento. Por outro lado, a necessidade de aprovação parlamentar ampla pode evitar excessos de gastos, como a expansão fiscal aprovada por coalizões anteriores.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.