Enquanto o mundo ainda digere as perturbações inflacionárias dos últimos anos, a Alemanha experimenta um fenômeno político que muitos liberais consideram preocupante: o ressurgimento da simpatia pelo socialismo. Pela primeira vez em uma década, partidos à esquerda do Partido Social-Democrata (SPD) – como A Esquerda (Die Linke) e a recém-formada Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) – ultrapassam juntos a marca de 20% das intenções de voto em sondagens nacionais. O cenário, impensável há cinco anos, torna-se o novo normal política em Berlim.
O termo "Lust am Sozialismus" (prazer no socialismo) não é mais uma piada acadêmica. Tomou conta de debates nas universidades, sindicatos e até mesmo entre eleitores conservadores desiludidos com a imigração descontrolada e a burocracia da União Europeia. Em um comunicado recente do instituto Infratest dimap, 38% dos alemães com menos de trinta anos afirmam ver com bons olhos ideias como a nacionalização de grandes empresas de energia e moradia, além de um sistema de saúde totalmente estatal – sem margem para a iniciativa privada.
A mudança não acontece no vácuo. A crise energética de 2022, exacerbada pelo conflito na Ucrânia, fez milhões de alemães sentirem na pele o preço da dependência estatal de fornecedores externos. Em vez de culparem a má gestão da transição energética promovida pelos verdes – que, ironicamente, são um partido de centro-esquerda – muitos passaram a exigir que o governo assumisse o controle total das redes de energia, uma bandeira histórica da extrema-esquerda. Sahra Wagenknecht, em discurso em Leipzig, capitalizou esse descontentamento: "A economia de mercado falhou; o Estado precisa intervir para proteger o povo", disse a líder do BSW.
Por que isso importa? A Alemanha não é qualquer país. É a locomotiva econômica da Europa, responsável por cerca de um quarto do PIB da zona do euro. Se Berlim virar significativamente à esquerda, as consequências para o livre comércio, a estabilidade fiscal e a competitividade do continente serão sentidas em toda parte. Medidas como congelamento de aluguéis por tempo indefinido, aumento de impostos sobre grandes fortunas e a proposta de um "orçamento estatal para empregos" – que muitos comparam a um New Deal alemão – já estão na pauta do parlamento e são discutidas seriamente pela chanceler SPD Olaf Scholz, que precisa do apoio da esquerda para governar.
A FORTIS NEWS analisa que a chamada "nova onda" é, na verdade, um movimento reativo, não construtivo. Os eleitores buscam soluções mágicas para problemas que a própria esquerda ajudou a criar, como a burocracia excessiva e a regulamentação ambiental que sufoca pequenos empresários. A "Lust am Sozialismus" é a expressão de uma sociedade que esqueceu as lições do século XX: o socialismo real significou escassez, falta de liberdade e atraso. A Alemanha Oriental, que viveu 40 anos de economia planificada, deveria ser a prova definitiva – mas a memória histórica, infelizmente, é curta.
No entanto, é justo ouvir o contraponto. Defensores das propostas socialistas argumentam que a Alemanha já possui um Estado de bem-estar social robusto e que as medidas visam apenas corrigir desigualdades agravadas pela inflação e pela especulação imobiliária. Em entrevista à rádio Deutschlandfunk, um economista do instituto IMK afirmou: "A Alemanha não está caminhando para o comunismo, apenas ajustando o capitalismo para torná-lo mais sustentável socialmente. Nacionalizar alguns setores estratégicos pode garantir preços mais baixos e empregos estáveis." A ressalva é que esse discurso, repetido nos anos 1970, gerou o chamado "modelo alemão" que, décadas depois, entrou em colapso com o aumento dos custos trabalhistas e a perda de competitividade.
O movimento de esquerda alemão também se beneficia de um vácuo de liderança no campo liberal-conservador. A CDU, sob Friedrich Merz, ainda não conseguiu reverter a erosão de sua base eleitoral, que migra tanto para a extrema-direita (AfD) quanto para a esquerda radical. O resultado é uma fragmentação perigosa: a coalizão de governo precisa de três partidos certas para aprovar qualquer lei, o que abre espaço para chantagens políticas da minoria socialista.
Para o liberal, a receita é clara: menos Estado, mais liberdade de escolha e competição. Mas a "nova lust" parece ter um apelo emocional que supera a razão econômica. O risco é que, em vez de fortalecer a Alemanha, essa onda a transforme em uma versão europeia da Argentina – com um setor público inchado, moeda instável e fuga de capitais. O tempo dirá se os eleitores alemães acordarão a tempo ou se o sonho socialista se tornará um pesadelo fiscal.
Por Renan Filho · 2026-09-20