As eleições regionais em Berlim, realizadas neste domingo, escancararam um cenário político que muitos preferiam ignorar: a esquerda alemã, rachada e em crise existencial, encontrou na capital o terreno fértil para uma vitória que mais parece um troféu de consolação. O partido A Esquerda (Die Linke), com discurso radical em habitação e serviços públicos, conquistou o eleitorado jovem e os distritos mais pobres. A CDU, por outro lado, amargou um resultado pífio, perdendo espaço para a extrema-direita da AfD e até para os liberais do FDP, que surfaram na onda da insatisfação com o establishment.
O mapa eleitoral de Berlim não mente: os distritos do leste, antigo reduto da esquerda pós-comunista, continuam fiéis à Die Linke, enquanto o oeste, mais abastado, migrou para os verdes ou se absteve. A CDU, que sonhava em capitalizar a crise econômica e a insegurança urbana, não conseguiu transformar o descontentamento em votos. Em publicação nas redes sociais, o secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann, admitiu o revés: "Não fomos capazes de conectar com as preocupações reais dos berlinenses". Já a líder da Die Linke, Ines Schmidt, em declaração à imprensa, classificou o resultado como "uma vitória da esperança contra a especulação imobiliária".
Por que isso importa? Berlim é o laboratório político da Alemanha, o maior município da União Europeia e um polo de inovação e start-ups. Uma coalizão de esquerda, formada por Die Linke, Verdes e SPD, terá carta branca para implementar políticas de congelamento de aluguéis, estatização de redes de aquecimento e taxação progressiva sobre renda e patrimônio. Na prática, isso significa mais gasto público, mais dívida e um ambiente de negócios ainda mais hostil para o setor privado. As pequenas empresas, que já sofrem com a burocracia local, serão as primeiras a pagar a conta. A imigração em massa, que pressiona o déficit habitacional, não será resolvida com teto de aluguel, mas com mais regulação e menos oferta.
A análise FORTIS é direta: a esquerda berlinense venceu porque aprendeu a falar a linguagem do bolso do eleitor, prometendo que o Estado vai prover tudo, desde moradia até energia, sem explicar de onde virá o dinheiro. A CDU, por sua vez, colhe o que plantou: sem uma mensagem liberal clara, sem defender privatizações e sem atacar o monopólio sindical no setor público, o partido de centro-direita foi engolido pelo próprio discurso genérico. O liberalismo econômico, que deveria ser a antítese do socialismo, foi abandonado em nome de um pragmatismo que não convence nem a base nem o eleitorado flutuante.
O contraponto vem da própria CDU, que ainda tenta se reerguer com a promessa de "oposição construtiva". Em nota oficial, o partido afirmou que vai "fiscalizar com rigor os gastos do novo governo e apresentar alternativas para reduzir a carga tributária". Mas a história recente mostra que, sem uma virada ideológica, a sigla continuará perdendo para a AfD, que, apesar de um discurso polêmico, soube explorar a pauta da segurança e da imigração. O eleitor berlinense, cansado da esquerda e desiludido com a direita, pode simplesmente optar por não votar, como já fez 30% do eleitorado.
Enquanto isso, o resto da Alemanha observa com apreensão. Berlim é o símbolo da má gestão crônica, com obras atrasadas, escolas em situação precária e uma dívida bilionária que cresce sem controle. A coalizão do semáforo, em Berlim, pode até trazer estabilidade, mas será uma estabilidade de preços artificiais e de fuga de capital humano. Os jovens qualificados, que sustentam o ecossistema de inovação da capital, já estão de malas prontas para Munique ou para o exterior. A esquerda comemora, mas a conta chegará em breve, e o contribuinte, mais uma vez, será o único a pagar.
Por Renan Filho · 2026-09-20