O relógio corre contra Boris Pistorius. O ministro da Defesa alemão enfrenta o maior teste de sua gestão: indicar o substituto do general-inspektor da Bundeswehr, cargo vago desde a saída do general Eberhard Zorn, em abril de 2026. A exigência vem de todos os lados — da oposição conservadora da CDU aos aliados liberais do FDP, passando pelos próprios generais da ativa. O prazo informal é o fim do ano legislativo, em dezembro de 2026.
A pressão ganhou corpo após o vazamento de um relatório interno do Ministério da Defesa, obtido pelo jornal Bild am Sonntag. O documento revela que, sem um general-inspektor, a cadeia de comando operacional está fragmentada. Atrasos em aquisições de munição, reprogramação de exercícios da OTAN e até a não substituição de equipamentos enviados à Ucrânia são atribuídos à ausência de liderança militar superior.
O contexto é de uma Alemanha que prometeu gastar 2% do PIB em defesa, mas ainda falha em transformar promessa em capacidade real. Dados oficiais do Bundestag mostram que, em 2026, o orçamento de defesa chega a 58 bilhões de euros. Ainda assim, o Bundeswehr sofre com estoques críticos de munição 155 mm e falta de manutenção nos veículos blindados Puma.
Por que isso importa para o contribuinte alemão? A resposta é direta: ineficiência custa caro. Cada mês sem um comandante militar efetivo significa contratos de consultoria militar privada, horas extras não supervisionadas e equipamentos obsoletos que exigem reparos emergenciais. O Escritório Federal de Equipamentos, Tecnologia da Informação e Suporte da Bundeswehr (BAAINBw) já reportou um aumento de 12% nos custos de manutenção corretiva em 2026, comparado ao mesmo período de 2025.
Análise FORTIS: O problema não é apenas de liderança, mas de cultura de gestão. O modelo alemão de defesa ainda opera como uma burocracia do pós-guerra, com decisões lentas e hierarquia inchada. Pistorius, um social-democrata conhecido por seu estilo combativo, tenta conciliar o desejo do chanceler Olaf Scholz por prudência fiscal com a necessidade de rearmamento urgente. O resultado é um impasse que só o mercado poderia resolver — abrindo a concorrência para fornecedores privados de serviços de defesa, algo que o establishment militar alemão rejeita.
O ministro, em declaração à imprensa no dia 14 de setembro, disse que “o processo de seleção está em andamento e exige cuidado”. Mas a realidade é que, desde a saída de Zorn, as nomeações internas foram paralisadas por disputas partidárias sobre o perfil do novo general-inspektor — se deve ser um reformista ou um tradicionalista.
A oposição não perdoa. O deputado da CDU, Roderich Kiesewetter, declarou à Rádio Deutschlandfunk que “a demora é um sinal de fraqueza do governo. A Alemanha não pode se dar ao luxo de ter um exército sem comando operacional.” O FDP, parceiro de coalizão, ecoou a crítica através da porta-voz de defesa, Marie-Agnes Strack-Zimmermann, que em publicação nas redes sociais afirmou que “a segurança nacional não é um processo administrativo de RH. Precisamos de um líder, não de um burocrata.”
Contraponto: Alguns analistas de segurança, como o professor da Universidade de Potsdam, Dr. Klaus Naumann, argumentam que o cargo de general-inspektor perdeu relevância real desde a criação do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, em 2020. Segundo ele, o problema central não é a nomeação, mas a falta de uma estratégia de defesa integrada — algo que vai além da escolha de um nome. Ainda assim, o fato é que a indefinição alimenta a percepção de descontrole.
Enquanto Pistorius hesita, os aliados observam. A OTAN, em nota oficial emitida em 10 de setembro, “incentivou a Alemanha a acelerar o processo de nomeação”. O tom foi diplomático, mas a mensagem foi clara: a maior economia da Europa não pode dar o mau exemplo de paralisia militar.
O liberalismo clássico ensina que instituições são tão fortes quanto seus líderes e incentivos. Sem um general-inspektor, o Bundestag perde a capacidade de supervisionar o uso do dinheiro do contribuinte. Com mais de 58 bilhões de euros em jogo, cada dia de espera é um dia de desperdício fiscal. O governo Scholz precisará decidir se prefere a segurança nacional ou a conveniência política.
**1. Quanto tempo leva para nomear um novo general-inspektor da Bundeswehr?** O processo formal, segundo o Ministério da Defesa, leva entre 60 e 90 dias após a indicação do ministro e aprovação do chanceler. No entanto, a preparação informal — consultas com os comandos militares e partidos da coalizão — pode se estender por meses. O atual vazio já dura mais de 150 dias, o que é considerado anormal mesmo para os padrões alemães de burocracia.
**2. A demora na nomeação pode afetar a capacidade da Alemanha de cumprir compromissos com a OTAN?** Sim. Embora a Alemanha mantenha forças destacadas na Força de Resposta da OTAN (NRF), a ausência de um general-inspektor atrapalha a coordenação de exercícios conjuntos e a aprovação de planos de contingência. O relatório do Ministério da Defesa cita que a participação alemã no exercício “Defender Europe 2026” foi reduzida em 15% devido a problemas de comando.
Por Renan Filho · 2026-09-20