A CDU amargou o pior resultado de sua história em Mecklenburg-Vorpommern. Conforme projeções da emissora pública ARD com base em boca de urna, o partido de Friedrich Merz obteve apenas 14,2% dos votos, ficando atrás da AfD (28,1%) e do SPD (21,5%). O termo “desastre” foi usado pelo próprio secretário-geral da CDU, Carsten Linnemann, em declaração à imprensa ainda durante a apuração.
Em Berlim, o cenário foi ainda mais simbólico. A Die Linke venceu pela primeira vez uma eleição estadual na capital, alcançando 22,4% dos votos, segundo dados oficiais da autoridade eleitoral berlinense. O SPD, que governava a cidade há décadas, caiu para 18,1%, enquanto os Verdes despencaram para 11,3%. A CDU berlinense também registrou queda, com 16,7%.
O resultado de Mecklenburg-Vorpommern não surpreende quem acompanha a erosão do partido no leste. Em 2021, a CDU já havia caído para 13,8% na região, mas agora perde ainda mais terreno. A AfD, que desde 2016 lidera as pesquisas no estado, consolidou seu domínio com um discurso antissistema e crítico à imigração. Em publicação nas redes sociais, Tino Chrupalla, presidente da AfD, celebrou: “O eleitor do leste não quer mais ser tratado como cidadão de segunda classe”.
A vitória da Linke em Berlim, por sua vez, é um alerta para o establishment. O partido, que já foi dado como morto após a cisão de Sahra Wagenknecht, ressurgiu com uma plataforma de estatização de aluguéis, congelamento de preços e fim das reformas trabalhistas. Em nota oficial, a co-presidente Janine Wissler afirmou que “Berlim mostra que uma alternativa socialista é possível mesmo no coração do capitalismo”.
Por que isso importa? Essas eleições são o último grande teste antes da eleição federal de 2027. O mapa político alemão está se fragmentando: o centro encolhe, enquanto as extremas ganham força. Para o liberalismo, o sinal é vermelho. A CDU, que deveria ser o partido da economia de mercado e da responsabilidade fiscal, abandonou suas bandeiras históricas em nome de um consenso estatizante. O resultado é a perda de identidade e de eleitores.
Análise FORTIS: O colapso da CDU não é um acidente, mas a consequência direta de décadas de social-democracia envergonhada. O partido adotou o discurso verde, aceitou o aumento de impostos e não defendeu abertamente cortes de gastos. Enquanto isso, a AfD capitalizou o descontentamento popular com a imigração descontrolada e a burocracia de Bruxelas. A Linke, por sua vez, surfou na insatisfação com o mercado imobiliário e a precarização do trabalho.
O erro fundamental é acreditar que o eleitor alemão rejeita o liberalismo. Ele rejeita o liberalismo de fachada. Quando a CDU age como uma versão pálida do SPD, o eleitor prefere o original ou a alternativa radical. A saída não é imitar a esquerda, mas resgatar os princípios de livre mercado: desregulamentação, redução de impostos, reforma da previdência e abertura comercial.
Contraponto: Analistas do instituto de pesquisas Infratest dimap argumentam que a vitória da Linke em Berlim é um fenômeno local, impulsionado por uma aliança com movimentos de inquilinos e pela crise de habitação. Não refletiria, segundo eles, uma tendência nacional. Além disso, a CDU ainda governa em coalizão em outros estados, como Baden-Württemberg. No entanto, esses argumentos ignoram o padrão consistente de queda nos últimos quatro anos.
O que se vê é um sistema político que premia o radicalismo. Enquanto a CDU insistir em ser um partido de centro sem centro, continuará perdendo para a AfD à direita e para a Linke à esquerda. A economia alemã, já em recessão técnica, precisa de reformas estruturais, não de mais subsídios e controle de preços.
Por Renan Filho · 2026-09-20