A CDU, partido que durante décadas foi o motor do centro-direita alemão, amarga perdas sucessivas. Nas eleições regionais de Brandemburgo e Saxônia-Anhalt, realizadas em setembro de 2026, a legenda obteve 18% e 22% dos votos, respectivamente – os piores resultados desde a fundação da República Federal.
Do outro lado do Reno, os Republicanos franceses (LR) acompanham a performance com apreensão. Em declaração à imprensa nesta quinta-feira, 17 de setembro, o presidente do LR, Éric Ciotti, afirmou que “a trajetória da CDU é um espelho do que vivemos na França desde 2017”. A referência é ao desmonte eleitoral do partido, que caiu de 20% para 4% nas últimas presidenciais.
O contexto é implacável. A CDU, sob a liderança de Friedrich Merz, tentou um reposicionamento à direita, mas o movimento foi tímido e tardio. Merz, em entrevista à rádio Deutschlandfunk, reconheceu que “a base espera uma ruptura clara com o legado de Merkel”, mas até agora o partido não apresentou um programa econômico que se distancie do estatismo herdado dos anos de coalizão.
Para os Republicanos franceses, o déjà-vu é quase literal. Em nota oficial, o partido lembrou que “a CDU repete o erro que cometemos ao tentar abraçar a agenda socialista para sobreviver, e no fim perdeu tanto a alma quanto os votos”. A nota cita como exemplo o apoio da CDU ao aumento do salário mínimo e à regulamentação de aluguéis, medidas aprovadas na coalizão com os sociais-democratas.
Por que isso importa? A Alemanha, maior economia da Europa, está a caminho de um bipartidarismo fraturado. A CDU, sem uma identidade liberal robusta, abre espaço para a Alternativa para a Alemanha (AfD) à direita e para os Verdes à esquerda. Isso significa que reformas de livre mercado – como a redução da carga tributária, a desburocratização e a abertura de setores estatais – ficam cada vez mais distantes.
Na análise da FORTIS NEWS, o erro central da CDU foi acreditar que o estatismo moderado atrairia o eleitorado de centro. Dados do Instituto de Pesquisas Econômicas de Munique (Ifo), divulgados em agosto, mostram que a carga tributária na Alemanha atingiu 46% do PIB, a maior desde a reunificação. O empresariado alemão, em carta aberta ao governo, classificou o ambiente de negócios como “sufocante”.
O contraponto vem de setores moderados dentro da CDU. O deputado federal Thorsten Frei, em artigo no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, argumentou que “o partido não pode virar as costas ao modelo social de mercado que construiu a prosperidade alemã”. Segundo Frei, a saída é mais Estado eficiente, e não menos Estado. A receita, porém, não convence o eleitorado jovem, que migra para partidos mais alinhados com pautas de liberdade individual.
Na França, os Republicanos tentam sobreviver com uma estratégia oposta: alinhar-se a Marine Le Pen para formar um bloco de direita ampla. A iniciativa, no entanto, é contestada internamente. Em entrevista ao Le Figaro, o senador LR Bruno Retailleau classificou a aproximação com o Rassemblement National como “suicídio político”. O racha ilustra o dilema dos conservadores europeus: ou se diferenciam da direita populista com uma agenda liberal clara, ou desaparecem.
Para a Alemanha, o horizonte é sombrio. A CDU ainda lidera as pesquisas nacionais, mas com 24% das intenções de voto, segundo a última sondagem da Forsa. O partido está longe dos 35% que obteve em 2013. Se mantiver a atual trajetória, o legado de Konrad Adenauer e Ludwig Erhard será apenas uma nota de rodapé.
A pergunta que fica: a CDU aprenderá com o déjà-vu francês ou repetirá o roteiro até o fim? A resposta está nas urnas de 2027, quando a Alemanha realizará eleições federais. Até lá, a centro-direita alemã precisa de uma cirurgia radical – ou aceitará virar coadjuvante na política do continente.
**1. O que a CDU deveria fazer para reverter as perdas eleitorais?** Segundo analistas do Instituto de Economia de Kiel, o partido precisa apresentar um programa de choque liberal: redução de impostos corporativos para 20%, desregulamentação do mercado de trabalho e privatização de empresas estatais como a Deutsche Bahn. Sem isso, o eleitorado continuará enxergando a CDU como uma versão pálida dos social-democratas.
**2. A situação dos Republicanos franceses é igual à da CDU?** Não exatamente. Enquanto a CDU perde votos para a AfD e os Verdes, os Republicanos franceses foram canibalizados pelo Rassemblement National e pelo partido de Emmanuel Macron. Contudo, o padrão é o mesmo: partidos de centro-direita que abandonam o liberalismo econômico perdem relevância e viram legendas de nicho.
Por Renan Filho · 2026-09-22