As urnas falaram, mas a CDU não quis ouvir. Nas eleições federais de setembro de 2026, a União Democrata-Cristã obteve 26,4% dos votos – uma recuperação modesta em relação ao desastre de 2021, mas muito aquém das expectativas. Em vez de uma autocrítica liberalizante, o partido escolheu a inércia. Friedrich Merz, o líder que prometia uma “virada conservadora e liberal”, continua no cargo. Nenhum nome de peso ousou desafiá-lo.
O silêncio na cúpula da CDU é ensurdecedor. Segundo reportagem do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung publicada três dias após a eleição, ao menos seis lideranças regionais foram consultadas informalmente para substituir Merz. Todas recusaram. O temor de um racha interno e a falta de uma candidatura competitiva deixaram o partido refém do atual presidente. O resultado prático é o adiamento de qualquer debate sério sobre a agenda econômica.
Merz herdou uma sigla desorientada, ainda sob a sombra do legado centrista de Angela Merkel. Nos três anos de liderança, ele tentou um equilíbrio frágil: críticas à política migratória, mas sem romper com o establishment europeísta; promessas de cortes de impostos, mas sem coragem para enfrentar a burocracia de Berlim. O balanço é pífio. Em declaração à imprensa nesta segunda-feira, a Federação da Indústria Alemã (BDI) classificou o atual clima político como “paralisia reformista”.
Por que isso importa? A Alemanha vive um momento econômico crítico. Com inflação ainda teimosa e o PIB real estagnado há dois trimestres, o país precisa desesperadamente de desregulamentação, redução de encargos trabalhistas e abertura comercial. O Partido Liberal (FDP), tradicional aliado, está encolhido e sem peso eleitoral. A CDU, como maior força de centro-direita, carrega a responsabilidade de liderar a oposição ao intervencionismo do governo Scholz. Mas Merz prefere não arriscar.
A análise do FORTIS é direta: a permanência de Friedrich Merz é um sintoma do medo institucional que domina a elite conservadora alemã. Ela prefere a estabilidade medíocre a um confronto real com o Estado gigante. O discurso liberal de Merz – cortes de tributos, simplificação de licenças, reforma da previdência – nunca saiu do papel. Na prática, a CDU continua votando em ampliações de subsídios e regulações, como demonstra a aprovação do novo pacote de ajuda à indústria automobilística, em julho passado. Não há salto no escuro; há estagnação.
O contraponto vem de setores moderados internos. Em entrevista à rede pública ARD, o vice-presidente da CDU, Carsten Linnemann, defendeu Merz: “Ele é o único que une as alas. Uma troca agora abriria crise em ano de eleições regionais”. De fato, há eleições em três Länder no primeiro semestre de 2027. O pragmatismo partidário diz que é melhor um líder fraco conhecido do que um incógnito. Mas esse raciocínio, típico de cartel político, ignora o declínio de confiança dos eleitores. Pesquisa do instituto Infratest dimap, divulgada no último domingo, mostra que 58% dos alemães consideram a CDU “um partido sem rumo”.
A agenda liberal que a Alemanha precisa – redução da carga tributária sobre empresas, desmonte de barreiras burocráticas ao investimento, reforma do sistema de pensões com capitalização individual – exige coragem política. Merz já teve a chance. Na convenção de Hamburgo em maio, ele prometeu um “novo contrato social de liberdade”. O contrato não passou do preâmbulo. Enquanto isso, economistas como Hans-Werner Sinn, do Instituto Ifo, alertam publicamente que a Alemanha caminha para uma “década perdida”, superada em competitividade por economias do Leste Europeu.
A inércia da CDU é ainda mais grave num contexto onde a Alternativa para a Alemanha (AfD) cresce justamente com um discurso de ruptura, embora nacionalista e protecionista. O espaço para uma direita liberal, pró-mercado, está aberto. Mas Merz, hoje, ocupa o lugar sem preenchê-lo. Sua permanência é a garantia de que a CDU continuará sendo um partido de centro, com pitadas liberais de retórica e ações estatizantes. Para quem esperava uma virada rumo a reformas de livre mercado, a mensagem é clara: ninguém salta, ninguém substitui, e a estagnação continua.
**1. Por que Friedrich Merz não foi desafiado após o resultado eleitoral abaixo do esperado?** Segundo analistas políticos ouvidos pelo jornal Die Welt, a principal razão é a ausência de uma alternativa viável e unificadora. Os possíveis candidatos – como o presidente do grupo parlamentar, Thorsten Frei, ou o ministro-presidente da Baviera, Markus Söder (CSU) – ou recusaram ou não reúnem apoio suficiente para vencer uma disputa interna. O medo de um racha expor a CDU a uma nova derrota nas eleições estaduais de 2027 consolidou a posição de Merz.
**2. Que reformas econômicas a CDU de Merz deixa de implementar e qual o impacto para o eleitor liberal?** Dentre as promessas não cumpridas estão a redução do imposto corporativo de 30% para 25%, a eliminação da sobretaxa de solidariedade (Solidaritätszuschlag) para todos os contribuintes e a desburocratização da emissão de licenças para novos negócios. O Instituto de Economia de Colônia estima que, sem essas medidas, o crescimento potencial alemão permanecerá abaixo de 1% ao ano. Para o eleitor liberal, a CDU se torna indistinta do SPD: promete liberdade, mas entrega proteção estatal.
Por Renan Filho · 2026-09-22