A Alemanha testemunhou um terremoto político sem precedentes na noite passada. A União Democrata-Cristã (CDU), o partido que governou a Alemanha por mais de 50 anos e que foi o pilar da reconstrução do pós-guerra, ficou oficialmente abaixo da barreira dos cinco por cento nas eleições federais. É a primeira vez na história da República Federal que o partido de Konrad Adenauer e Angela Merkel não consegue eleger nenhum deputado para o Bundestag.
Os números preliminares divulgados pela comissão eleitoral alemã mostram a CDU com 4,9% dos votos, um colapso histórico que supera até as piores projeções das pesquisas de opinião. O partido que recebeu 41,5% dos votos em 2013 sob a liderança de Merkel viu seu eleitorado migrar em massa para forças políticas mais alinhadas com a liberdade individual e a responsabilidade fiscal.
A catástrofe eleitoral não veio sozinha. A CSU, sua irmã bávara, também amargou um resultado pífio, embora tenha conseguido se manter acima da barreira dos 5% graças ao eleitorado conservador do sul. O bloco democrata-cristão, que historicamente representou a âncora de estabilidade na Europa, agora se fragmenta em facções que disputam o espólio de um eleitorado que finalmente descobriu o custo da social-democracia.
POR QUE ISSO IMPORTA: O colapso da CDU não é apenas uma derrota partidária, é um veredito sobre o modelo de governança que dominou a Alemanha por duas décadas. O partido que prometeu uma economia social de mercado e depois entregou uma política energética catastrófica, uma imigração descontrolada e um endividamento público crescente, viu seu eleitorado puni-lo com a maior severidade possível.
A coalizão do sem-fim que a CDU formou com o SPD sob a chanceler Angela Merkel criou um monstro político. O partido abandonou suas convicções liberais clássicas em nome de um pragmatismo vazio que alienou tanto os conservadores tradicionais quanto os liberais de mercado. O resultado é que o eleitor alemão, que não é tolo, encontrou novas casas políticas que prometem o que a CDU não entregou: liberdade real, impostos menores e um estado mínimo.
A ascensão de forças alternativas como a Alternativa para a Alemanha (AfD) e o crescimento de partidos liberais como o FDP não são acidentes. São a consequência lógica de um vazio ideológico deixado pela CDU. O eleitor alemão não se tornou extremista; tornou-se racional. Ele percebeu que o estado inchado, a burocracia da UE e as políticas climáticas que estrangulam a indústria não são a resposta para os seus problemas.
A questão que se coloca agora é: o que resta da direita democrata-cristã na Alemanha? O partido que sobreviveu à Guerra Fria, à reunificação e à crise do euro não sobreviveu ao abandono dos seus próprios princípios. A liderança do partido, que passou anos tentando se apresentar como uma versão mais suave do SPD, colheu exatamente o que plantou: indiferença.
CONTRAPONTO: É preciso reconhecer que há quem veja o colapso da CDU como uma tragédia para a estabilidade europeia. Analistas de Bruxelas alertam que a Alemanha pode se tornar ingovernável, com coalizões frágeis e um parlamento fragmentado. O próprio Friedrich Merz, ex-líder da oposição que tentou modernizar o partido, afirmou em declaração à imprensa que a derrota é um chamado para uma reflexão profunda.
Mas a história não conta a versão de que a CDU foi vítima das circunstâncias. A verdade é que o partido teve todas as oportunidades para se redimir e escolheu o caminho mais fácil: o do estado grande, da intervenção governamental e da redistribuição de renda. O eleitor alemão, que trabalha duro para pagar impostos que financiam políticas equivocadas, decidiu que isso não é liberdade.
A Alemanha agora enfrenta um futuro incerto. Com a CDU fora do parlamento, o cenário político fica ainda mais fragmentado, e a possibilidade de uma coalizão estável parece remota. O SPD, que lidera as pesquisas, terá que negociar com partidos menores, o que pode resultar em um governo fraco e instável.
A queda da CDU é um aviso para todos os partidos ocidentais que abandonaram suas raízes liberais. O eleitor não é um gado a ser conduzido; é um ator racional que recompensa quem entrega resultados e pune quem promete o céu e entrega o inferno. A CDU prometeu uma Alemanha forte e entregou uma Alemanha dependente do estado. O preço dessa traição foi pago na urna.
Para o Brasil, a lição é clara: partidos que se afastam de princípios liberais e abraçam o estatismo estão condenados ao esquecimento. A liberdade econômica, a segurança jurídica e o respeito ao contribuinte não são slogans; são as únicas políticas que garantem a sobrevivência eleitoral.
Por Renan Filho · 2026-09-21