A formação de governo no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental transformou-se num verdadeiro teste à resiliência das instituições alemãs — e, até agora, elas estão falhando. O BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht), rebento da ala mais estatista e anti-imigração da antiga Die Linke, decidiu usar sua posição de fiel da balança para impor uma pauta que mistura protecionismo energético e hostilidade ao mercado de trabalho aberto, conforme amplamente repercutido no Deutschland-Liveblog.
O impasse começou quando a CDU, vencedora das eleições estaduais de setembro, tentou formar uma coligação com o SPD. Sem maioria absoluta, os democratas-cristãos precisam de um terceiro parceiro. O BSW, com 12% dos votos, sentou-se à mesa e, desde então, vem exigindo que o futuro governo estadual adote uma política de "preços máximos" para energia elétrica e congele a instalação de novas turbinas eólicas em terra.
Para qualquer observador que acredite em livre mercado, a proposta beira o surrealismo. Preço máximo de energia, em plena crise de oferta, é a receita clássica para desabastecimento e deterioração da infraestrutura elétrica. O BSW, no entanto, vende a ideia como "proteção ao consumidor", numa retórica que ecoa diretamente os velhos manuais da esquerda centralista.
A segunda exigência é ainda mais grave: o partido quer que o governo estadual se oponha frontalmente à política federal de imigração, exigindo cotas rígidas e suspensão imediata da acolhida de requerentes de asilo. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, um dos estados mais envelhecidos e com menor densidade populacional da Alemanha, essa posição é economicamente autossabotadora.
Empresários locais, em declaração à imprensa regional, já alertaram que sem imigração qualificada e mão de obra para a agricultura e o turismo, o estado simplesmente encolherá. Mas o BSW, segundo analistas da Rádio NDR, parece mais interessado em capitalizar o descontentamento com a imigração do que em propor soluções reais para o mercado de trabalho.
O governo federal, ocupado com a crise orçamentária e a guerra na Ucrânia, observa o impasse em Schwerin com crescente apreensão. A chanceler Olaf Scholz, em pronunciamento no Bundestag na quarta-feira, limitou-se a dizer que "a formação de governos estaduais é assunto dos estados", uma declaração que soou como um recuo tático diante da ascensão de Wagenknecht.
Se o BSW conseguir impor sua agenda em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, abrirá um precedente perigoso. Outros estados onde o partido também tem força — como Turíngia e Saxônia — podem seguir o mesmo roteiro. A Alemanha, que já enfrenta uma estagnação econômica crônica, veria seus estados mais frágeis adotarem políticas que afastam investimento e encarecem o custo de vida.
**Por que isso importa para o Brasil e para os liberais**
A situação em Schwerin não é apenas uma crise germânica. Ela demonstra como partidos populistas de esquerda e direita, quando se unem em pautas estatizantes, conseguem paralisar governos inteiros. O BSW é uma mistura típica do pior de ambos os mundos: controle estatal da economia (esquerda) e restrições à circulação de pessoas (nacionalismo econômico).
Para o liberalismo brasileiro, a lição é clara: sem uma frente unida que defenda abertamente a liberdade econômica e a abertura de mercados, qualquer partido oportunista pode, com uma fatia modesta do eleitorado, sequestrar a agenda governamental. O BSW tem apenas 12% dos votos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, mas detém o poder de veto.
Além disso, a insistência do BSW em tabelar preços de energia serve de alerta para o Brasil. Aqui, discutimos a reforma do setor elétrico justamente para atrair investimento privado e reduzir tarifas. Na Alemanha, a esquerda rejeita a abertura e prefere o controle de preços — que, cedo ou tarde, leva ao racionamento ou à deterioração do serviço.
**Análise FORTIS**
A crise em Schwerin expõe a fragilidade institucional de um sistema que privilegia coalizões amplas e não premia a clareza ideológica. O BSW, ao contrário do que muitos pensam, não é um partido "nem de esquerda nem de direita". É um partido que rejeita o mercado e a liberdade de circulação — dois pilares do liberalismo clássico.
A CDU, por sua vez, comete o erro de tentar negociar com quem não quer negociar. Em vez de buscar uma aliança pragmática com o SPD e, eventualmente, com os Verdes (que, apesar dos excessos ambientais, ao menos são previsíveis nas pautas econômicas), a CDU entrega o protagonismo a Wagenknecht.
Se os liberais alemães — representados pelo FDP — quisessem se afirmar como força relevante, este seria o momento de oferecer uma alternativa clara ao eleitorado: menos estado, mais mercado, e imigração regulada por demanda econômica, não por cotas ideológicas. Mas o FDP está fraturado e sem voz.
Enquanto isso, o impasse em Schwerin segue. E a Alemanha, outrora motor da economia europeia, caminha para um futuro de governos estaduais reféns de partidos que enxergam no Estado a solução para todos os males.
**Contraponto**
Defensores do BSW argumentam que o partido apenas expressa a vontade popular de regiões esquecidas pelo governo federal. Wagenknecht, em nota oficial, afirmou que "a energia deve ser um bem público, não uma mercadoria", e que "a imigração descontrolada destrói o tecido social de pequenas cidades".
O problema é que tais afirmações ignoram a realidade econômica. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o custo da energia já é um dos mais altos da Alemanha justamente por causa da dependência de fontes renováveis intermitentes e da falta de investimento em infraestrutura de transmissão — problemas que o tabelamento de preços só agravaria.
Quanto à imigração, estudos do Instituto de Economia de Kiel mostram que regiões com maior abertura a trabalhadores estrangeiros tiveram crescimento do PIB per capita 2,3% superior entre 2015 e 2023. Fechar as portas é condenar o estado à estagnação demográfica e econômica.
O BSW vende ilusões. Cabe ao eleitorado liberal, na Alemanha e no Brasil, apontar o fracasso dessas promessas.
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**1. O BSW tem chance de emplacar suas exigências em Schwerin?**
Sim, porque a CDU não tem maioria para formar governo sem o BSW ou sem um pacto amplo com SPD e Verdes. O BSW já deixou claro, em comunicado à imprensa, que não abrirá mão de suas pautas. Caso a CDU ceda, o precedente pode incentivar outros partidos estaduais a imitar a estratégia. Caso a CDU rejeite as exigências, pode haver novas eleições — o que, para um partido em queda nas pesquisas nacionais, seria arriscado.
**2. Qual a posição dos liberais (FDP) sobre o impasse?**
O FDP, que obteve apenas 5,8% dos votos em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, ficou de fora do Parlamento estadual. A sigla nacionalmente criticou o BSW por "chantagem política", mas não tem poder de influenciar diretamente a mesa de negociações. A crise reforça a tese de que o FDP precisa se reorganizar para ser uma alternativa nos estados do leste, onde o sentimento antissistema cresce.
Por Renan Filho · 2026-09-20