As urnas no Leste alemão não deixaram dúvidas. A Alternativa para a Alemanha (AfD) e a recém-criada Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) avançaram de forma avassaladora, enquanto CDU e SPD amargaram resultados históricos negativos. Em declaração à imprensa, o líder da CDU, Friedrich Merz, admitiu que o partido precisa “refletir profundamente” sobre a perda de confiança dos eleitores. Mas a verdade é que a reação correta não é dobrar a aposta no Estado de bem-estar social.
A tentação será grande. Nos bastidores, já se ouve vozes na SPD defendendo aumento de subsídios e programas sociais para reconquistar o eleitorado perdido. Em publicação nas redes sociais, o ministro das Finanças, Christian Lindner (FDP), alertou que “medidas populistas de curto prazo apenas agravariam o problema fiscal”. Lindner tem razão. A Alemanha já enfrenta uma dívida pública de 60% do PIB e um déficit orçamentário crônico. Mais gastos significam mais impostos ou mais inflação.
Por que isso importa? Porque o Leste alemão não é um laboratório de políticas keynesianas. A região sofreu décadas de planejamento central soviético e, depois da reunificação, foi tratada como “paciente” de transferências federais. O resultado foi uma economia dependente de subsídios, com baixa produtividade e emigração dos jovens mais qualificados. O voto na AfD e na BSW é, em grande parte, um grito contra esse modelo paternalista que nunca gerou prosperidade autossustentável.
A análise da FORTIS é direta: CDU e SPD precisam de coragem liberal. Isso significa cortar impostos corporativos e simplificar a burocracia para estimular o empreendedorismo no Leste. Em entrevista à Rádio MDR, o economista Lars Feld, conselheiro do governo, afirmou que “a diferença de produtividade entre Leste e Oeste só será reduzida com reformas estruturais, não com transferências”. A lógica é clara: enquanto Berlim seguir transferindo dinheiro sem contrapartidas de competitividade, o Leste continuará sendo um celeiro de insatisfação.
O contraponto vem dos defensores do status quo. Em nota oficial, o sindicato IG Metall argumentou que “sem investimento público maciço, a desindustrialização do Leste será inevitável”. Mas esse raciocínio ignora que os bilhões já gastos não impediram o fechamento de fábricas. O problema não é falta de dinheiro, mas excesso de regulação e falta de liberdade econômica. A Alemanha tem um dos mercados de trabalho mais rígidos da OCDE, com altos custos de contratação e demissão. Isso sufoca pequenas empresas, exatamente as que mais geram empregos no interior.
Outro ponto crucial é a imigração. A AfD capitalizou o medo da perda de identidade cultural e da pressão sobre serviços públicos. Em vez de prometer mais cotas e assistencialismo, CDU e SPD deveriam defender um sistema de imigração baseado em mérito e qualificação, como o modelo canadense. Em declaração ao jornal Die Welt, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica de Halle, Reint Gropp, destacou que “a integração econômica exige que os imigrantes contribuam para o sistema, não apenas que recebam benefícios”. A imigração descontrolada sobrecarrega escolas e hospitais, alimentando o discurso radical.
A reação de pânico seria prometer mais benefícios sociais e acenar com “diálogo” com extremistas. Mas isso apenas legitimaria a agenda antiliberal. O caminho correto é defender abertamente o livre mercado, a responsabilidade fiscal e a liberdade individual. Em publicação no X (antigo Twitter), o deputado do FDP, Otto Fricke, escreveu: “Os eleitores do Leste não querem mais esmolas do Estado. Querem oportunidades reais de prosperar com seu próprio esforço.” É uma verdade inconveniente para quem vive de clientelismo.
O cenário é grave, mas não irreversível. As eleições no Leste são um sinal de alerta, não uma sentença de morte para a democracia liberal. A CDU e a SPD ainda podem se reinventar – desde que abandonem o receituário estatista. A história mostra que partidos que se agarram ao poder com promessas de gastos acabam perdendo ainda mais apoio. A Alemanha precisa de menos Estado, não de mais. Perder a calma agora significaria entregar o país ao populismo de esquerda e direita.
**1. Por que a AfD e a BSW tiveram tanto sucesso no Leste alemão?** O sucesso se deve a uma combinação de fatores: insatisfação com a imigração descontrolada, estagnação econômica apesar de décadas de transferências federais, e a percepção de que CDU e SPD ignoram as preocupações locais. Os eleitores buscam alternativas radicais porque as tradicionais não oferecem soluções liberais, apenas mais do mesmo.
**2. Qual seria a política liberal mais urgente para o Leste?** Reduzir drasticamente a burocracia para abertura de empresas, cortar impostos sobre a folha de pagamento e eliminar subsídios setoriais que distorcem o mercado. Além disso, reformar o sistema de imigração para atrair mão de obra qualificada que realmente contribua para a economia local. Sem essas medidas, o Leste continuará dependente e ressentido.
Por Renan Filho · 2026-09-21