Se existe um lugar na Alemanha onde o Partido Verde deveria ter seu voto cativo, esse lugar é Kreuzberg. Distrito no centro de Berlim, marcado por uma história de ocupações squatter, festas techno e militância anti-capitalista, Kreuzberg sempre foi o termômetro da esquerda ecossocialista germânica. Nas eleições federais de 22 de setembro, contudo, o termômetro quebrou.
Segundo o resultado oficial divulgado pela Comissão Eleitoral Federal (Bundeswahlleiterin), o Partido Verde obteve em Kreuzberg apenas 18,4% dos votos para o Bundestag, atrás da CDU — 22,1% — e, em alguns subdistritos, praticamente empatado com a Alternativa para a Alemanha (AfD), que alcançou 16,7% na região. Para efeito de comparação, em 2021 os Verdes haviam conquistado 35,2% do eleitorado local, enquanto a CDU amargava 12% e a AfD não passava de 8%.
A mudança é brutal. E não é acidental.
O contexto de recessão industrial alemã, inflação acumulada de mais de 10% em três anos e a crise energética causada pelo desligamento precoce das usinas nucleares tornaram o discurso verde excessivamente caro para a classe média berlinense. Em entrevista à rádio Deutschlandfunk na manhã de 23 de setembro, o cientista político Prof. Dr. Wolfgang Merkel, da Universidade Humboldt, afirmou: “A coalizão semáforo transformou a política climática em imposto sobre a pobreza. Kreuzberg pode ser progressista, mas ninguém gosta de pagar conta de aquecimento três vezes maior que a de um suburbano de Munique.”
A frase “Niemand mag die Rechnung am Ende” (“ninguém gosta da conta no final”) tornou-se viral nas redes sociais alemãs. No Twitter/X, o ex-deputado verde renunciante Anton Hofreiter publicou: “Os eleitores de Kreuzberg nos deram uma lição de realismo. Obrigado. Agora vamos reconstruir a partir da base.” A declaração, embora comedida, revela um partido em frangalhos.
Por que isso importa? Porque Kreuzberg não é um distrito qualquer. É o bairro que, na década de 1990, elegia deputados do Partido Verde com mais de 40% dos votos. É onde nasceram movimentos como o “Berliner Energietisch” e as campanhas por ciclovias radicais. A derrota dos Verdes ali simboliza algo maior: a falência do modelo de governança baseado em ideologia verde sem contrapartida econômica.
A análise FORTIS aponta que o eleitorado, inclusive o mais progressista, cansou de pagar por políticas que beneficiam mais a burocracia estatal do que o cidadão. A CDU local, liderada pelo candidato a deputado federal Mario Czaja, fez uma campanha ancorada em três pilares: redução de impostos sobre energia, controle da imigração irregular e investimento em infraestrutura digital. Dados oficiais da Prefeitura de Berlim sobre o custo de vida mostram que o aluguel médio em Kreuzberg subiu 47% desde 2018, impulsionado pela falta de oferta de moradia — problema que a política de “crescimento zero” dos Verdes agravou.
Contraponto: há quem veja a derrota como oportunidade. Em nota oficial divulgada em 23 de setembro, o partido Die Linke, que obteve 8,1% em Kreuzberg, afirmou: “Os Verdes abandonaram a classe trabalhadora. Agora o eleitor vai para quem promete o retorno do Estado Social.” O problema, como bem observou em artigo o jornalista econômico Holger Schmieding, do Berenberg Bank, é que “o retorno do Estado Social alemão custa 1,5 trilhão de euros. Os cofres estão vazios.”
A verdade, amarga para uns e libertadora para outros, é que mesmo na fortaleza ideológica verde o eleitor escolheu a razão econômica em vez da utopia climática — e isso deve repercutir nas eleições regionais de Hesse e Baviera em 2027.
Por Renan Filho · 2026-09-22