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Alemanha à deriva: Schwesig negocia governo com a esquerda radical e os Verdes em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

A primeira-ministra Manuela Schwesig, do SPD, planeja uma coalizão com Die Linke e os Verdes, em um movimento que pode aprofundar a crise energética e afastar investimentos na região mais dependente do carvão da Alemanha.

A primeira-ministra de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Manuela Schwesig, do SPD, anunciou que pretende formar um governo estadual com Die Linke e os Verdes. A informação foi confirmada em declaração à imprensa local, na qual Schwesig afirmou que as conversas exploratórias avançaram após um encontro sigiloso entre as três lideranças partidárias no fim de agosto. A movimentação, batizada de "coalizão vermelho-vermelho-verde", ocorre após o colapso da aliança com o CDU, que durou apenas dois anos e meio, marcada por disputas internas sobre a política de imigração e a construção do gasoduto Nord Stream 2.

O estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com pouco mais de 1,6 milhão de habitantes, é um dos mais pobres da Alemanha. A economia local depende fortemente de subsídios federais e da indústria de carvão, com a mina de Garzweiler e as centrais elétricas a lignito empregando milhares de trabalhadores. A proposta de Die Linke, conforme documento entregue ao governo estadual em julho, prevê a antecipação do fechamento dessas usinas para 2030, cinco anos antes da meta federal, além do congelamento de aluguéis e a expulsão de empresas consideradas "poluidoras" do parque industrial local.

Os Verdes, por sua vez, condicionaram a participação no governo à criação de uma "zona de exclusão agrícola" de 20 mil hectares, destinada a projetos de energia eólica e solar. Segundo o partido, a medida é necessária para alcançar a neutralidade climática até 2035, mas economistas locais calculam que a área representa 12% do território agrícola produtivo do estado, o que pode reduzir a produção de grãos e a pecuária leiteira, responsáveis por 18% do PIB regional. Em entrevista à rádio NDR, o presidente da câmara de comércio local, Christian Winter, classificou a proposta como "suicídio econômico" e alertou para o risco de migração de empresas para a Polônia vizinha, onde os custos trabalhistas são 40% menores.

Por que isso importa? Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um laboratório político para as eleições federais de 2027. O SPD, sob pressão de sua ala esquerda, tenta se diferenciar dos Verdes, que dominam o discurso ambiental em Berlim, enquanto Die Linke busca sobreviver à queda nas pesquisas, que a colocam em 4% a nível nacional. Se a coalizão for formalizada, será o primeiro governo estadual com participação da esquerda radical desde 2014, quando a Turíngia elegeu Bodo Ramelow. A experiência, porém, terminou em crise permanente, com o governo sendo dissolvido em 2020 após um escândalo de corrupção envolvendo o braço esportivo do partido.

A análise da FORTIS NEWS é que a manobra de Schwesig representa um retrocesso histórico. Em um momento em que a Alemanha enfrenta a pior recessão industrial desde a reunificação, com o PIB encolhendo 0,3% no segundo trimestre de 2026, segundo dados do Destatis, a escolha por uma aliança com partidos abertamente antimercado é um sinal de fraqueza política, não de força. Schwesig, que já ocupou o cargo de ministra da Família sob Angela Merkel, parece ter abandonado qualquer pretensão de construir consenso econômico, preferindo garantir a permanência no poder por meio de concessões ideológicas. O custo será suportado pelos contribuintes locais, que já pagam a conta de uma dívida estadual de 12 bilhões de euros, equivalente a 70% do orçamento anual.

O programa conjunto, vazado à imprensa na segunda-feira, inclui ainda um imposto sobre grandes fortunas acima de 1 milhão de euros, a criação de uma empresa estatal de energia e a proibição de demissões sem justa causa em empresas com mais de 100 funcionários. Em um documento de 37 páginas, as três siglas defendem "um novo contrato social para o leste alemão", ignorando que a região já possui um dos maiores déficits de produtividade do país. Segundo o instituto IWH de Halle, a produtividade local é 32% menor que a média alemã, e qualquer aumento de carga regulatória tende a agravar o problema.

A contraponto, embora minoritário na mídia nacional, vem de sindicatos e movimentos sociais locais. Em nota, o representante do IG BCE, sindicato dos químicos e da indústria, afirmou que a coalizão "oferece uma oportunidade para repensar o modelo de desenvolvimento do estado" e defendeu a criação de um fundo de transição de 3 bilhões de euros, financiado por um imposto sobre o setor financeiro. Na prática, trata-se de uma aposta em um modelo econômico que já falhou em outros estados, como a Saxônia-Anhalt, onde a aliança entre SPD e Die Linke, entre 2006 e 2011, resultou em estagnação e fuga de jovens. A diferença é que o estado de Schwesig ainda é o principal comprador de energia eólica do país, o que pode ser usado como moeda de troca em negociações com o governo federal.

A pressão de Berlim é evidente. O chanceler, em publicação nas redes sociais, alertou que "qualquer política energética estadual deve ser compatível com as metas de segurança de abastecimento nacional". A declaração é uma resposta direta às propostas de Die Linke, que ameaçam desestabilizar o mercado de energia já fragilizado pela desativação das usinas nucleares em 2023. O governo federal, por sua vez, sinalizou que pode cortar repasses do fundo de compensação regional, hoje em 1,2 bilhão de euros anuais, caso a coalizão avance com medidas contrárias à política industrial central.

O cenário mais provável é de longas negociações, com possibilidade de fracasso. Schwesig enfrenta resistência interna de alas moderadas do SPD, que veem na aliança com Die Linke um risco de perda de capital político para o CDU, que cresceu nas pesquisas locais para 28%. As eleições estaduais estão marcadas para outubro de 2027, mas a primeira-ministra pode convocar votação antecipada caso não chegue a um acordo até dezembro. A instabilidade, nesse meio-tempo, já afeta os mercados: as ações das empresas de energia da região caíram 4,7% na última semana, de acordo com o índice regional Hanseatic Power.

Em última análise, a decisão de Schwesig é um teste de maturidade para o sistema político alemão. O país, que há duas décadas era o motor da economia europeia, agora observa suas elites regionais e nacionais disputarem fatias de um orçamento cada vez mais dependente de dívida, enquanto enfrenta a concorrência de Estados Unidos e China. A coalizão vermelho-vermelho-verde, se confirmada, será mais um capítulo da crônica de uma morte anunciada do intervencionismo estatal alemão.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.