O líder da União Democrata Cristã (CDU), Friedrich Merz, não usou meios termos para descrever o desempenho de seu partido nas eleições estaduais de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Em publicação nas redes sociais, o político classificou o resultado como um “desastre” — e a palavra não é exagero retórico. A CDU amargou o terceiro lugar, atrás da Alternativa para a Alemanha (AfD) e da esquerda radical, justamente no estado que elegeu Angela Merkel por décadas e que serviu de berço político da ex-chanceler.
O resultado é um terremoto político e um alerta definitivo para a União. Merz, que assumiu a legenda com a promessa de renovação conservadora e liberal, viu seu partido ser atropelado pela AfD, que agora se consolida como principal força da oposição no leste alemão. Para o eleitorado da região, a mensagem é clara: o centro democrata-cristão não entrega mais nada — nem econômico, nem cultural, nem em termos de soberania nacional.
Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é um caso emblemático do fracasso do consenso merkelista. Durante 16 anos, o estado foi tratado como vitrine do “milagre alemão” — mas a realidade é que a região se transformou em um deserto econômico, dependente de subsídios federais e com uma taxa de desemprego estrutural que não se resolve com transferências de renda. A CDU de Merkel, sob o lema “o mercado resolve”, na prática, promoveu o estado de bem-estar social e a política energética insana do “Energiewende”, que destruiu a indústria local.
O resultado é o pano de fundo perfeito para a ascensão da AfD. O partido, que cresce exatamente nas regiões onde o Estado falhou, capitaliza o descontentamento popular com uma agenda de segurança, identidade e livre comércio real — sem as amarras burocráticas de Bruxelas. Enquanto a CDU se esforça para se distanciar do passado merkelista, o eleitor não distingue mais a diferença entre a União e o Partido Social-Democrata (SPD) de Olaf Scholz. Ambos são a mesma coisa: estatismo, imigração descontrolada e submissão à agenda verde de Bruxelas.
Merz, que já flertou com a ala mais liberal do partido, agora tenta surfar a onda da derrota. Em declaração à imprensa, ele prometeu “reconstruir a confiança” e “trazer de volta os valores que fizeram a Alemanha forte”. Mas o eleitor não é tolo: quem queimou a largada ao tentar imitar o discurso da esquerda em 2021, quando assumiu a legenda, não pode agora virar a mesa e se apresentar como alternativa. O histórico de Merz é de um tecnocrata de mercado — mas que nunca teve coragem de romper com o consenso progressista em temas como energia nuclear, imigração e integração europeia.
Aqui entra a análise FORTIS: a derrota da CDU não é um acidente de percurso, é a consequência lógica de décadas de traição aos princípios liberais. O liberalismo clássico, que deveria ser a espinha dorsal da direita alemã, foi abandonado em nome de um “centrismo” que só serve para enriquecer o complexo industrial-verde e manter o poder das burocracias partidárias. O resultado é o que se vê: a União perde para a AfD, que, apesar de seus exageros retóricos, é o único partido a falar abertamente sobre os custos da imigração em massa e a necessidade de reabrir usinas nucleares.
O que a Alemanha precisa é de uma direita que entenda que o livre mercado não é um fim em si mesmo, mas um meio para a prosperidade. E que a prosperidade só existe se houver segurança jurídica, moeda estável e respeito à soberania nacional. A CDU, sob Merz, não oferece nada disso. Ela oferece mais do mesmo: mais União Europeia, mais moeda única, mais imigração, mais burocracia. E o eleitor de Mecklemburgo-Pomerânia, que não tem nada a perder, respondeu com o voto.
O cenário para as eleições federais de 2025 é sombrio para a União. Se a CDU não mudar de rota, a AfD pode se tornar a maior força de oposição no parlamento federal — e, quem sabe, até em um governo regional. Para os liberais de verdade, a lição é clara: a direita alemã só sobreviverá se abandonar o consenso merkelista e abraçar o liberalismo econômico com coragem. Caso contrário, o “desastre” de Mecklemburgo-Pomerânia será apenas o começo de uma hecatombe eleitoral que pode varrer o partido de Adenauer do mapa.
Enquanto isso, os mercados reagem com cautela, mas sem pânico. Investidores sabem que a Alemanha, mesmo em crise política, continua sendo o motor econômico da Europa. No entanto, a instabilidade institucional cobra seu preço: o spread dos títulos alemães (Bunds) sobe, o euro perde valor e a confiança do empresariado — que já estava em baixa — se deteriora ainda mais. O próximo chanceler, seja quem for, terá a missão impossível de consertar os estragos de 16 anos de Merkel e a paralisia do semáforo de Scholz.
Para a FORTIS, a conclusão é inevitável: a Alemanha paga agora o preço de ter escolhido o conforto do estado de bem-estar em detrimento da liberdade econômica. E enquanto a CDU não entender que o liberalismo não é um ornamento retórico, mas uma ferramenta prática para gerar riqueza e coesão social, o país continuará refém da mediocridade. O voto em Mecklemburgo-Pomerânia é um tiro de partida para a virada conservadora-liberal que a Europa tanto precisa — mas que, ao que tudo indica, a elite alemã insiste em ignorar.
O caminho para a recuperação é estreito e exige coragem. Merz, que já foi chamado de “o futuro da CDU”, tem a chance de se redimir — mas isso só acontecerá se ele abandonar o pragmatismo rasteiro e abraçar, de fato, a pauta da liberdade econômica, da segurança e da identidade nacional. Caso contrário, o “desastre” que ele mesmo reconheceu será apenas o primeiro capítulo de uma tragédia que pode custar caro não só para a Alemanha, mas para toda a Europa ocidental.
Por Renan Filho · 2026-09-20