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Alemanha: a insatisfação que pode finalmente abrir espaço para o liberalismo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-21

Pesquisas mostram um eleitor alemão no limite da paciência com o status quo. A crise migratória, a desindustrialização e o Estado inchado criam o cenário perfeito para uma virada liberal — se houver quem a represente.

A Alemanha caminha para as eleições de 2026 com um eleitorado que, segundo pesquisas recentes, atingiu o ápice da frustração. O termo em alemão 'Unzufriedener können die Leute kaum noch werden' — que traduzido significa 'as pessoas dificilmente poderiam estar mais insatisfeitas' — tornou-se praticamente um mantra nos círculos políticos de Berlim. Não é para menos: a economia estagnou, a imigração descontrolada sobrecarrega os serviços públicos e a burocracia europeia sufoca qualquer tentativa de inovação.

A pesquisa mais recente do instituto INSA, divulgada no início de setembro, mostra que 78% dos alemães consideram que o país está no caminho errado. O dado é devastador para o governo do chanceler Olaf Scholz, que já amarga índices de aprovação abaixo de 25%. A insatisfação não é apenas com o governo atual, mas com todo o sistema político tradicional — o que abre uma janela histórica para alternativas.

O contexto é explosivo. A Alemanha, que já foi a locomotiva econômica da Europa, agora enfrenta três trimestres consecutivos de crescimento negativo. O setor industrial, espinha dorsal do país, perdeu mais de 120 mil postos de trabalho em 2025, segundo dados da Federação das Indústrias Alemãs (BDI). As empresas migram para os Estados Unidos ou para a Ásia, atraídas por incentivos fiscais e menos regulação. Enquanto isso, o governo alemão insiste em políticas de austeridade verde que encarecem a energia e inviabilizam a produção.

Por que isso importa? Porque a Alemanha não é apenas mais um país. É a maior economia da União Europeia e o principal parceiro comercial do Brasil. Uma Alemanha fraca significa uma Europa fraca, e uma Europa fraca significa menos demanda por produtos brasileiros, menos investimento estrangeiro e mais instabilidade global. A eleição alemã de 2026, portanto, não é um assunto local — é um evento geopolítico de primeira grandeza.

A análise FORTIS enxerga nesse cenário uma oportunidade única para o liberalismo. O eleitor alemão está cansado de promessas coletivistas que nunca se concretizam. A esquerda radical, com sua agenda identitária e climática, perdeu a conexão com o trabalhador comum. A direita tradicional, representada pela CDU, ainda não aprendeu a falar a língua da liberdade econômica. Resta a AfD, que cresce nas pesquisas, mas carrega o estigma do radicalismo e ainda não apresenta um programa econômico coerente.

O liberalismo clássico, com sua ênfase em liberdade individual, mercados abertos e Estado mínimo, é a única doutrina que pode resolver os problemas alemães de forma sustentável. A redução da carga tributária, a desregulamentação do mercado de trabalho e o fim dos subsídios verdes são medidas que devolveriam competitividade à indústria alemã. Mas para isso, é preciso um líder que tenha coragem de enfrentar o consenso de Berlim — e que consiga traduzir essas ideias em linguagem popular.

É aqui que entra o contraponto. Os críticos argumentam que a Alemanha não pode simplesmente abandonar suas políticas sociais sem gerar ainda mais instabilidade. O país tem uma tradição de economia social de mercado, que combina capitalismo com proteção social. Desmontar esse sistema de uma vez poderia causar um choque violento em uma população já acostumada com a rede de segurança estatal. Além disso, a história alemã do século XX ensina que o nacionalismo econômico pode levar a desastres — um alerta que não deve ser ignorado.

No entanto, a história também ensina que o fracasso do intervencionismo é o que mais rapidamente aproxima as pessoas do liberalismo. A Alemanha Ocidental dos anos 1940, sob a liderança de Ludwig Erhard, abandonou o controle de preços e os racionamentos, e em poucos anos se tornou uma potência. O 'milagre alemão' não foi obra do Estado, mas da liberdade. Hoje, a Alemanha precisa de outro Erhard — alguém que entenda que a prosperidade não vem de decretos, mas da iniciativa privada.

O cenário é de oportunidade, mas também de risco. Se a insatisfação popular for canalizada para partidos autoritários ou populistas de esquerda, a Alemanha pode entrar em uma espiral de declínio ainda mais profunda. O liberalismo precisa se apresentar como a alternativa viável — não como uma ideologia de elite, mas como uma solução prática para os problemas do cidadão comum. A pergunta que fica é: quem será o porta-voz dessa mensagem na Alemanha?

A resposta pode vir de onde menos se espera. Nos estados do leste, onde a insatisfação é maior, há um movimento crescente de empreendedores e pequenos empresários que se organizam em torno de pautas liberais. Eles não querem o Estado de volta — querem que o Estado saia do caminho. Essa energia, se bem direcionada, pode ser o fator decisivo nas urnas de 2026. O liberalismo alemão, que parecia morto há uma década, pode renascer das cinzas da insatisfação.

Enquanto isso, o Brasil deve observar com atenção. Uma Alemanha liberalizada seria um parceiro comercial ainda mais valioso, com menos amarras regulatórias e mais abertura para investimentos. O momento exige que os liberais brasileiros se posicionem ao lado dos seus equivalentes alemães, não apenas por solidariedade ideológica, mas por interesse estratégico. A insatisfação alemã é uma oportunidade — e o mundo liberal precisa estar preparado para aproveitá-la.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.