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Alemanha acorda: urnas abertas em Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental testam o fim do consenso estatista

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-20

Berlim e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental abriram suas seções eleitorais neste domingo, 19 de setembro de 2026, em eleições regionais que podem redefinir o mapa político alemão e sinalizar uma reação liberal contra o intervencionismo do governo federal.

As urnas começaram a receber votos às 8h locais nos dois Länder, e a expectativa é de uma participação recorde, impulsionada pelo descontentamento com as políticas energéticas e fiscais de Berlim. Em Berlim, cidade-Estado com 2,5 milhões de eleitores aptos, a CDU e a recém-fortalecida Alternativa para a Alemanha (AfD) disputam voto a voto a liderança, enquanto o SPD do prefeito Franziska Giffey amarga quarto lugar nas pesquisas, segundo o instituto Infratest dimap. Já em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, estado rural de 1,2 milhão de eleitores, a AfD aparece tecnicamente empatada com a CDU, com 26% cada, à frente do SPD, com 18%, conforme levantamento da Forschungsgruppe Wahlen divulgado na sexta-feira.

O cenário é um desastre para a coalizão semafórica do chanceler Olaf Scholz, que governa a Alemanha com um programa de gastos públicos elevados, fechamento precoce de usinas nucleares e subsídios maciços a indústrias ineficientes. Os eleitores alemães, especialmente em regiões periféricas como Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, sentem na pele a inflação de 4,2% ao ano, os preços da energia 30% maiores que em 2021 e o estresse regulatório que afugenta empresas. Uma nota oficial do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW), publicada em 12 de setembro, alertou que o estado perdeu 12% de seus empregos industriais desde 2020, concentrando-se agora em empregos públicos e no setor de turismo sazonal, de baixa produtividade.

Por que isso importa? Estas eleições regionais são vistas como um termômetro para as nacionais de 2027 e, mais importante, como uma rejeição ao modelo de bem-estar social que sufoca a iniciativa privada. A vitória da AfD ou de uma coalizão CDU-liberal em qualquer um dos dois estados forçará Scholz a recuar na agenda de expansão do Estado e de aumento de impostos sobre heranças e ganhos de capital, proposta pelo ministro das Finanças, Christian Lindner, em julho passado. Em entrevista à Rádio Deutschlandfunk, o economista-chefe do Instituto Kiel, Stefan Kooths, declarou que “a Alemanha precisa de cortes de gastos, não de novos impostos. As eleições de hoje mostram que o eleitorado está farto de promessas vazias e quer políticas que devolvam liberdade econômica às famílias e empresas.”

A análise FORTIS é clara: o que está em jogo é a sobrevivência do modelo ordoliberal alemão, que combinava prudência fiscal com mercados abertos, contra o intervencionismo disfarçado de “transição verde”. Berlim, sob gestão social-democrata e verde, tornou-se um labirinto de burocracias: uma loja de conveniência leva em média 14 meses para obter licença de funcionamento, segundo levantamento da Câmara de Comércio e Indústria de Berlim. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a falta de infraestrutura digital e de rodovias modernas espanta investimentos privados, e o governo local prefere distribuir subsídios a projetos eólicos ineficientes, que geram empregos temporários e custam bilhões aos contribuintes. O eleitorado, especialmente os jovens, está migrando para partidos que prometem desregulamentação, corte de impostos e redução do tamanho do Estado.

Contraponto: defensores da coalizão semafórica argumentam que o aumento dos gastos sociais, como o Bürgergeld (renda básica), reduziu a pobreza em 3% desde 2022, segundo relatório do Ministério do Trabalho divulgado em agosto. Dizem ainda que o fechamento das nucleares era necessário para a segurança energética de longo prazo, e que os subsídios verdes atraíram 18 bilhões de euros em investimentos estrangeiros desde 2023. O problema é que esses números maquiam a realidade: o Bürgergeld desincentiva o trabalho formal, com 1,9 milhão de beneficiários em empregos de meio período, e os investimentos verdes foram, em grande parte, em fábricas de baterias e painéis solares que dependem de matéria-prima importada da China e de subsídios perpétuos. O contribuinte alemão já paga a conta mais alta de eletricidade da Europa, e as empresas de médio porte, a espinha dorsal da economia, estão se mudando para os EUA ou Polônia.

O resultado desta eleição será anunciado até as 22h, horário local, e pode surpreender os institutos de pesquisa, que subestimaram a força da AfD nos últimos pleitos. Em 2024, a AfD obteve 24% na Saxônia, contra 18% previstos. Se repetir o feito em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, terá condições de formar governo, mesmo que sem maioria absoluta. Berlim, por sua vez, deve seguir com uma coalizão complexa, mas a CDU, sob liderança de Kai Wegner, pode assumir a prefeitura e iniciar uma agenda de cortes de gastos e simplificação regulatória, como prometeu em comício no bairro de Mitte, na última quinta-feira. O mercado financeiro reagiu positivamente: o índice DAX abriu em alta de 0,8% nesta manhã, segundo dados da Bolsa de Frankfurt, sinalizando que investidores apostam em uma guinada liberal pós-eleições.

Enquanto os alemães votam, a pergunta que fica é: quanto tempo o establishment de Berlim conseguirá ignorar a vontade popular? A história mostra que, quando as urnas falam, os políticos ouvem ou são varridos. Se Scholz e seu ministro das Finanças, Lindner, insistirem em aumentar impostos e encolher o setor produtivo, podem preparar o terreno para uma vitória conservadora em 2027 que será lembrada como o “despertar alemão” contra o estatismo.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.