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O outono de recordes da AfD: o que a direita alemã aprendeu (e o que ainda não)

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

Com resultados históricos em três eleições estaduais consecutivas, a Alternativa para a Alemanha (AfD) colhe os frutos de uma estratégia que combinou radicalização controlada e discurso econômico liberal. O partido, porém, ainda enfrenta o dilema de ser grande demais para ignorar, mas pequeno demais para governar.

A Alemanha testemunhou, entre setembro e outubro de 2026, o que a imprensa local já chama de “Herbst der Rekorde” (outono dos recordes). A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou mais de 30% dos votos na Turíngia, 28% na Saxônia e 24% em Brandemburgo — números que, até cinco anos atrás, pertenciam ao reino do impensável. O partido tornou-se a maior força política em dois dos três estados, e a segunda no terceiro.

O que explica essa escalada? Em declaração à imprensa no dia seguinte à vitória na Turíngia, o copresidente da AfD, Tino Chrupalla, afirmou que o eleitorado “cansou-se das políticas de custo de vida elevado e da imigração descontrolada”. A frase, repetida em variações por outros líderes do partido, sintetiza o discurso que rendeu votos: uma combinação de liberalismo econômico de baixo para cima e nacionalismo cultural.

O contexto macroeconômico ajudou. A Alemanha enfrenta, em 2026, o terceiro ano consecutivo de crescimento anêmico, com inflação ainda acima de 3% e desemprego industrial em alta, especialmente nos Länder do leste. A política energética do governo federal — baseada no abandono precoce do carvão e na dependência de renováveis intermitentes — elevou os custos de produção para pequenas e médias empresas. A AfD capitalizou ao propor cortes de impostos, redução de burocracia e retorno à energia nuclear, conforme documento programático divulgado em agosto.

Por que isso importa? Porque a AfD quebrou, de forma definitiva, o chamado “cordão sanitário” (Brandmauer) que os demais partidos tentavam manter contra ela. Em várias câmaras municipais e assembleias estaduais, a CDU já negocia pontualmente com a AfD para aprovar orçamentos ou leis de segurança. O tabu caiu. O líder da CDU, Friedrich Merz, em entrevista à Rádio Deutschlandfunk, admitiu que “a situação exige pragmatismo, não dogmatismo”.

A análise FORTIS enxerga um movimento mais profundo. A AfD aprendeu, nos últimos dois anos, a modular seu radicalismo. Nas eleições de 2024, o partido ainda carregava o estigma de extremista, com o Escritório Federal de Proteção à Constituição classificando suas alas jovem e da Turíngia como “suspeitas de extremismo de direita”. Em 2026, porém, a liderança nacional forçou uma calibragem: discursos mais amenos sobre imigração — focando em “controle de fronteiras” em vez de “remigração” — e ênfase em propostas econômicas concretas, como a eliminação do imposto sucessório e a desregulamentação do mercado de trabalho.

O resultado é um partido que, nas pesquisas de opinião realizadas pelo instituto Forsa em setembro, aparece como o mais confiável para “gerir a economia” entre eleitores com renda abaixo de 40 mil euros anuais. A esquerda, representada pelo SPD e pelos Verdes, perdeu esse eleitorado ao apostar em subsídios estatais e taxação de lucros extraordinários — medidas que, na prática, não aliviaram o bolso do trabalhador e do pequeno empresário.

Contraponto: há quem veja o avanço da AfD como um sintoma de erosão democrática. O presidente do Escritório Federal de Proteção à Constituição, em nota oficial publicada na semana passada, alertou que “o discurso moderado da cúpula não elimina o radicalismo das bases”. De fato, parlamentares da ala extremista, como Björn Höcke, continuam a usar linguagem revisionista histórica — algo que afasta eleitores mais liberais e urbanos. A AfD, portanto, vive uma tensão interna entre o pragmatismo eleitoral e a pureza ideológica.

Outro ponto cego: a falta de capacidade de formar coalizão. Mesmo com 30% dos votos, a AfD não tem parceiros dispostos a governar com ela em nível estadual. CDU, SPD, Verdes e Linke repetem que não formarão governo com a AfD. Isso gera um paradoxo: o partido cresce, mas não exerce poder executivo. Se não conseguir romper esse isolamento nos próximos dois anos, o desgaste pode virar contra si.

Para o liberalismo de mercado, a lição central é que o eleitor alemão recompensa quem fala de liberdade econômica com credibilidade. A AfD ainda falha em defender abertamente a redução do Estado de bem-estar social, mas acerta ao criticar o excesso de regulação verde e a carga tributária. O movimento, entretanto, precisa abandonar de vez o flerte com o revisionismo histórico e o antissemitismo para se tornar um partido de governo viável. Caso contrário, continuará sendo um gigante de votos, mas um anão de poder.

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**1. A AfD pode realmente chegar ao governo federal alemão?** Depende de dois fatores: a manutenção do cordão sanitário pelos demais partidos e a capacidade da AfD de moderar seu discurso a ponto de se tornar aceitável para uma coalizão. Em 2026, a CDU já sinaliza abertura em nível local, mas no plano federal o veto permanece. Se a CDU vencer as eleições federais de 2027 e precisar de aliados, a pressão para negociar com a AfD será imensa. A história mostra que tabus políticos duram até o momento em que deixam de ser convenientes.

**2. O que os partidos tradicionais aprenderam com o outono de recordes da AfD?** Aparentemente, pouco. O SPD e os Verdes continuam a defender a mesma agenda de gastos sociais e transição energética acelerada que afugentou o eleitorado de classe média baixa. A CDU, por sua vez, tenta um discurso mais conservador na imigração, mas sem a mesma radicalidade da AfD. A lição não aprendida é que, enquanto a economia real continuar apertada e a imigração desordenada, a direita populista terá terreno fértil. O liberalismo de mercado oferece uma alternativa: menos Estado, mais liberdade individual e responsabilidade fiscal — algo que a AfD apenas começa a ensaiar.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.