O Aeroporto Internacional Alfonso Bonilla Aragón, em Cali, foi palco de um susto que mobilizou bombeiros, ambulâncias e equipes de segurança. Por volta das 9h30, a tripulação do voo Wingo 826, com destino a Bogotá, reportou fumaça saindo da parte frontal da aeronave, um Boeing 737-800. Imediatamente, os protocolos de emergência foram acionados: escorregadores infláveis, evacuação dos 168 passageiros e isolamento da área. Ninguém se feriu, e a fumaça foi rapidamente controlada pela equipe de solo.
As causas ainda estão sob investigação da Aeronáutica Civil colombiana, mas fontes preliminares indicam um possível superaquecimento de um componente elétrico no compartimento do trem de pouso dianteiro. A Wingo, subsidiária da Copa Airlines, afirmou em nota que a aeronave passou por todas as revisões obrigatórias e que a segurança dos passageiros é prioridade. O avião foi retirado de operação para inspeção detalhada.
O incidente, porém, não é apenas um fato isolado de susto e evacuação. Ele expõe um problema estrutural no setor aéreo colombiano: a rigidez regulatória que, em nome da segurança, gera custos crescentes para as companhias e, no fim da linha, para o consumidor. A Wingo opera como low cost, com margens apertadas. Cada hora de aeronave parada para inspeções obrigatórias — muitas vezes redundantes — significa prejuízo que é repassado às tarifas.
Por que isso importa? Porque a Colômbia, assim como o Brasil, adota um modelo de certificação de aeronaves e manutenção fortemente baseado em normas da FAA (Federal Aviation Administration) e da EASA (European Aviation Safety Agency), mas com camadas extras de burocracia local. Um simples alarme de fumaça, mesmo que falso, pode gerar uma cascata de procedimentos que imobilizam a aeronave por dias, exigindo laudos, vistorias e aprovações de órgãos públicos. O resultado: voos atrasados, malha aérea encolhida e passagens mais caras.
A análise FORTIS é direta: o livre mercado, com competição entre seguradoras, empresas de manutenção e companhias aéreas, seria mais eficiente para garantir a segurança do que o monopólio estatal sobre as regras. Nos Estados Unidos, por exemplo, a FAA permite que empresas credenciadas realizem manutenções com auditoria privada, reduzindo o tempo de solo sem comprometer a segurança. Na Colômbia, a Aeronáutica Civil exige aprovação prévia para quase tudo, criando gargalos.
O contraponto, claro, é que segurança aérea não pode ser tratada como commodity. Ninguém defende voar com aviões sucateados. Mas a abordagem de “risco zero” é uma miragem que custa caro. O acidente do voo 2933 da Chapecoense, em 2016, gerou uma onda de novas regras na Colômbia, muitas delas sem análise de custo-benefício. Desde então, o número de inspeções obrigatórias cresceu 40%, segundo dados da Associação Colombiana de Aviação Civil (ACAC). O resultado foi uma redução de acidentes, mas também um aumento de 15% nos custos operacionais das aéreas.
No caso da Wingo, a empresa já havia sido multada em 2024 por atrasos em manutenções preventivas — uma contradição: se a regra é tão rígida, por que a empresa descumpriu? Porque o custo de cumprir todas as exigências é tão alto que algumas companhias optam pelo risco regulatório. O mercado, se deixado mais livre, poderia incentivar a autorregulação: uma companhia que atrasa manutenção perde clientes e seguros mais caros, enquanto uma que investe em segurança ganha reputação e prêmios menores.
O susto em Cali deve servir de alerta não apenas para a Wingo, mas para os reguladores. Em vez de mais burocracia, a Colômbia precisa de um sistema baseado em desempenho, com metas de segurança claras e flexibilidade para as empresas escolherem os meios. Enquanto isso, o passageiro paga a conta — e ainda leva susto.
Por Renan Filho · 2026-09-19