A cidade de Santa Marta, na costa caribenha da Colômbia, viveu nesta quarta-feira (23) o primeiro dia de calma relativa após 48 horas de terror imposto por grupos criminosos ligados ao narcotráfico. O toque de recolher informal — imposto à bala por sicários que queimaram ônibus, fecharam vias e aterrorizaram moradores — foi suspenso, e o prefeito Carlos Pinedo Cuello usou as redes sociais e entrevistas a rádios locais para conclamar os lojistas a reabrirem as portas.
“Não podemos permitir que o crime dite o ritmo da nossa cidade. Reabrir o comércio não é um ato de imprudência, é um ato de resistência cidadã”, declarou Pinedo em vídeo publicado em seu perfil oficial no X (antigo Twitter). A declaração veio acompanhada de um reforço na presença militar: 200 soldados adicionais foram deslocados para a cidade, somando-se aos 400 que já patrulham a região desde o início da crise.
O ataque coordenado começou na segunda-feira (21), quando homens armados em motocicletas incendiaram cinco veículos de transporte público e bloquearam as principais avenidas. O alvo, segundo a inteligência policial, era forçar o governo a recuar em operações de erradicação de plantações de coca na Serra Nevada, reduto histórico das guerrilhas e cartéis. A estratégia deu parcialmente certo: o comércio fechou, escolas suspenderam aulas e a prefeitura recomendou que a população permanecesse em casa. Mas o prefeito, de perfil liberal-conservador, optou por não ceder ao pânico.
Para o FORTIS NEWS, a postura de Pinedo Cuello acerta ao tratar a reabertura econômica como prioridade. O fechamento compulsório do comércio, mesmo que por ameaça, gera perdas imediatas para pequenos empresários e trabalhadores informais — justamente os mais vulneráveis em economias latino-americanas onde o Estado já tributa demais e entrega pouco em segurança pública. Cada dia de portas cerradas significa renda perdida para famílias que não podem contar com auxílio governamental robusto.
O contexto colombiano é grave, mas não novo. A Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, e Santa Marta, por sua localização portuária, é rota obrigatória para embarques rumo à Europa e aos Estados Unidos. O crime organizado local, fragmentado entre o Clã do Golfo e dissidências das FARC, testa constantemente os limites do Estado. A diferença, agora, é que o governo de Gustavo Petro — o primeiro presidente de esquerda da história colombiana — enfrenta desgaste político por sua política de “paz total”, que muitos críticos consideram leniente com os criminosos.
Análise FORTIS: A decisão de reforçar o contingente militar em vez de negociar com os grupos armados é o caminho correto, mas insuficiente. Dados oficiais do Ministério da Defesa colombiano indicam que, entre 2022 e 2025, as operações de erradicação forçada de coca caíram quase 40%, enquanto as áreas cultivadas cresceram 12%. Sem retomar uma política de presença estatal ostensiva — que combine repressão ao tráfico com desburocratização para a agricultura legal, incluindo a liberdade de comercialização de produtos como cacau e café —, cidades como Santa Marta continuarão reféns de ciclos de violência.
O prefeito Pinedo, aliado do centro-direita colombiano, fez questão de apontar que “não há normalidade possível sem segurança jurídica e física para o empreendedor”. A frase ecoa uma visão liberal-conservadora de que o Estado mínimo que a Colômbia precisa não é o Estado ausente, mas aquele que cumpre suas funções essenciais — defesa e justiça — com eficiência, e depois sai do caminho de quem produz riqueza.
Contraponto — Críticos da medida: Alguns setores da esquerda colombiana, como o senador Ivan Cepeda (Pacto Histórico), afirmaram em entrevista à emissora W Radio que “a militarização sem diálogo apenas adia o problema e criminaliza comunidades pobres”. O argumento ignora que as comunidades pobres são as primeiras vítimas do fechamento do comércio e do toque de recolher imposto pelos traficantes. A verdade factual é que, em 2024, Santa Marta registrou 147 homicídios — queda de 8% em relação ao ano anterior, segundo a Polícia Nacional. Ainda assim, o número de extorsões a comerciantes subiu 22%, indicando que o crime organizado migrou para táticas de intimidação urbana. Ou seja: entregar território à “negociação” fortalece exatamente quem vive de extorquir o trabalhador.
Por Renan Filho · 2026-09-23