Santa Marta, na costa caribenha da Colômbia, vive nos últimos dias um movimento coordenado entre prefeitura, governo departamental e forças de segurança para retomar a normalidade após semanas de tensão. O comércio local, que havia reduzido horários e até fechado portas diante de ameaças de grupos armados, voltou a operar com horário integral, acompanhado de patrulhamento ostensivo da Polícia Nacional e do Exército.
Segundo comunicado oficial da Prefeitura de Santa Marta, divulgado nesta quarta-feira (23), a reabertura gradual começou na segunda-feira (21) e já conta com adesão de mais de 80% dos estabelecimentos comerciais do centro, do bairro histórico e da zona hoteleira. “Estamos retomando a confiança com ações concretas: mais policiais nas ruas, câmeras de monitoramento e parceria com os comerciantes”, afirmou o secretário de Segurança do município, Carlos Márquez, em entrevista à rádio local.
O contexto anterior era de apreensão. Nos meses de julho e agosto, Santa Marta registrou aumento de extorsões e homicídios ligados a facções criminosas que disputam rotas do narcotráfico. A situação levou a Associação de Comerciantes de Santa Marta (ACOSAM) a pedir intervenção federal. Em nota, a entidade destacou que “a violência estava inviabilizando o funcionamento do comércio e ameaçando empregos”.
A resposta veio do governo colombiano, que enviou 300 agentes adicionais da Polícia Nacional e um batalhão do Exército para reforçar a segurança na região. Além disso, a prefeitura lançou um programa de incentivo fiscal temporário para empresas que retomarem as atividades — redução de 50% no IPTU (Imposto Predial) por três meses, condicionado à manutenção de empregos formais.
Por que isso importa? Santa Marta é um polo turístico estratégico, responsável por cerca de 15% do PIB do departamento de Magdalena, segundo dados do DANE (Departamento Administrativo Nacional de Estatística). A paralisação do comércio afetou diretamente milhares de famílias que dependem do fluxo de visitantes, especialmente no setor de serviços. A retomada é vista como teste para a capacidade do Estado colombiano de garantir segurança sem recorrer a medidas de exceção que prejudicam a economia.
Análise FORTIS: A atuação das autoridades em Santa Marta acerta ao priorizar o livre funcionamento do comércio como motor da recuperação. O Estado, historicamente ineficiente na Colômbia — assim como no Brasil —, gastou mal durante décadas com burocracia e programas sociais que não reduziram a criminalidade. Desta vez, a opção por segurança ostensiva combinada a desoneração fiscal pontual mostra que é possível agir com menor peso estatal e maior foco em resultados. Entretanto, o pacote de incentivos fiscais precisa ser temporário e bem calibrado para não criar dependência. Além disso, o reforço policial deve vir acompanhado de reformas no sistema prisional e de inteligência, sob pena de ser apenas um paliativo.
Contraponto: Organizações de direitos humanos, como a Fundação Paz e Justiça, criticam o aumento da presença militar, afirmando que a abordagem pode “criminalizar a pobreza” e gerar abusos. Em relatório recente, a entidade aponta que operações semelhantes em cidades como Buenaventura resultaram em denúncias de arbitrariedades. Embora a crítica tenha fundamento em casos passados, os dados atuais de Santa Marta mostram redução de 40% nos roubos a estabelecimentos comerciais desde o início da operação, segundo balanço oficial da Polícia Metropolitana. É preciso equilíbrio: segurança não pode ser sinônimo de autoritarismo, mas a ausência dela já condena milhares ao desemprego e à informalidade.
Por Renan Filho · 2026-09-23