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Do algoritmo ao fuzil: como as redes sociais se tornaram escritórios de recrutamento forçado de jovens em Cali

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Enquanto o Estado colombiano falha em proteger suas fronteiras digitais, grupos armados usam WhatsApp, TikTok e Instagram para aliciar adolescentes em troca de promessas de dinheiro e poder. Dados oficiais mostram aumento de 40% nos casos de recrutamento forçado em 2025.

O cenário é de guerra silenciosa, mas com armas cada vez mais tecnológicas. Em Cali, terceira maior cidade da Colômbia, o recrutamento forçado de jovens deixou de ser feito apenas em praças e escolas para migrar para o ambiente digital. Grupos armados — incluindo dissidências das FARC, o ELN e bandas criminosas locais — transformaram redes sociais como TikTok, Instagram e WhatsApp em verdadeiras agências de aliciamento. Em reportagem do jornal El Tiempo publicada em agosto de 2026, a Defensoria del Pueblo revelou que, nos primeiros seis meses do ano, 347 crianças e adolescentes foram vítimas de tentativas de recrutamento forçado por meio de perfis falsos e mensagens direcionadas. O número representa um aumento de 40% em relação ao mesmo período de 2025.

A mecânica é simples e cruel. Perfis com fotos de jovens bem-vestidos, exibindo dinheiro, celulares e armas, enviam mensagens para adolescentes de bairros periféricos de Cali, como Aguablanca, Siloé e Terrón Colorado. As promessas incluem pagamentos entre 500 mil e 2 milhões de pesos colombianos (cerca de R$ 600 a R$ 2.400) por tarefas como “vigiar” esquinas, transportar pacotes ou, em estágios mais avançados, participar de ataques. Conforme nota oficial da Policía Nacional divulgada em julho, ao menos 12 perfis foram identificados como fachadas de grupos criminosos, mas a maioria opera a partir de contas criadas no exterior, dificultando a identificação.

Por que isso importa? Porque o fenômeno expõe uma dupla falência estatal. De um lado, a incapacidade do governo colombiano de regular plataformas digitais que lucram com conteúdo violento e não cooperam com investigações locais. De outro, a ausência de políticas públicas eficazes de inclusão digital e de geração de emprego para jovens em situação de vulnerabilidade. Dados do Departamento Administrativo Nacional de Estadística (DANE) mostram que a taxa de desemprego juvenil em Cali chega a 22%, o dobro da média nacional. Em um contexto de livre mercado, seria esperado que o Estado criasse incentivos para que empresas gerassem oportunidades formais — mas o que se vê é burocracia asfixiante e impostos elevados que afugentam investimentos.

A análise FORTIS é direta: o recrutamento forçado digital é um sintoma de um Estado que gasta mal, tributa demais e entrega pouco. Enquanto a Colômbia mantém uma carga tributária de 34% do PIB, a arrecadação não se traduz em segurança nas ruas nem em proteção nas telas. A Defensoria del Pueblo já alertou, em relatório de maio, que apenas 18% dos municípios colombianos têm programas de prevenção ao recrutamento forçado. Em Cali, o orçamento para segurança digital em 2026 foi de apenas 1,2 bilhão de pesos (cerca de R$ 1,4 milhão) — insuficiente até para treinar uma equipe de 50 agentes especializados.

Contraponto: há quem defenda que a culpa é exclusiva das big techs, que deveriam moderar conteúdo de forma mais agressiva. De fato, a Meta (dona do WhatsApp e Instagram) e a ByteDance (TikTok) têm falhado em remover perfis de aliciamento. Em resposta a questionamentos da imprensa, a Meta afirmou que “remove conteúdo que viole suas políticas” e que “colabora com autoridades locais”. A ByteDance, por sua vez, disse em nota que “investe em inteligência artificial para detectar padrões de recrutamento”. No entanto, a FORTIS ressalta que atribuir toda a responsabilidade às plataformas ignora o papel do Estado: se o governo colombiano tivesse uma política de cibersegurança robusta e programas de emprego que dessem alternativas reais aos jovens, o algoritmo dificilmente seria tão eficaz.

Os números não mentem. Segundo a Policía Nacional, 73% dos jovens recrutados digitalmente em Cali tinham entre 12 e 16 anos e abandonaram a escola antes dos 14. A falta de perspectivas econômicas, combinada com a exposição a conteúdos glamourizados de violência nas redes, cria um caldo de cultura perfeito para o aliciamento. Enquanto o Congresso colombiano discute projetos de lei para aumentar a idade mínima de uso de redes sociais — proposta que tramita desde 2024 sem votação —, os grupos armados continuam recrutando.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.