A partir das 5h desta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, os motoristas de Medellín devem ficar atentos: apenas veículos com placas terminadas em 7, 8, 9 e 0 estão autorizados a circular no horário de pico, das 6h às 20h, conforme a resolução da Secretaria de Mobilidade publicada em setembro. Quem infringir a regra será multado em 15 salários mínimos colombianos (cerca de 1,2 milhão de pesos, equivalentes a aproximadamente R$ 1.450), além da retenção do veículo por 24 horas. A medida, embora apresentada como solução para o caos viário, expõe o velho vício do Estado latino-americano de tributar e punir o cidadão em vez de investir em infraestrutura e tecnologia.
O 'Pico y Placa' não é novo. Implementado em Medellín desde 2005, o sistema alterna dias de restrição com base no último dígito da placa. A lógica por trás da política é simples: reduzir o número de carros nas ruas nos horários de maior movimento. Contudo, décadas de aplicação mostram resultados pífios. Segundo dados oficiais do Departamento Nacional de Planejamento (DNP) da Colômbia, divulgados em relatório de 2025, a velocidade média nos corredores principais da cidade caiu 7% nos últimos dez anos, mesmo com a restrição. O que se vê é um efeito sanfona: motoristas adquirem segundos veículos com placas diferentes, ou simplesmente mudam seus horários, transferindo o congestionamento para vias alternativas e horários menos fiscalizados.
Por que isso importa para o cidadão comum? Porque a restrição não apenas fere a liberdade individual — o direito de usar o próprio carro para trabalhar, levar os filhos à escola ou atender emergências — como também impõe custos adicionais a quem já paga impostos elevados. Na Colômbia, a carga tributária sobre combustíveis e veículos é uma das mais altas da América Latina, com alíquotas que chegam a 45% sobre a gasolina. Enquanto isso, o governo local gasta fortunas em campanhas de publicidade e na manutenção de um sistema de fiscalização eletrônica, em vez de aplicar os recursos na ampliação de vias, construção de viadutos ou integração de modais. Dados do Orçamento Municipal de Medellín para 2026, obtidos pelo FORTIS junto à Controladoria Geral, mostram que apenas 12% dos investimentos em mobilidade foram destinados à infraestrutura viária; o restante foi consumido por operação e fiscalização do 'Pico y Placa'.
Análise FORTIS: É preciso coragem para dizer que o 'Pico y Placa' é uma medida estatizante, ineficiente e que penaliza justamente quem mais precisa do automóvel: o trabalhador que mora na periferia e depende do carro para chegar ao emprego formal. Em vez de ações de livre mercado — como pedágios urbanos com preços dinâmicos, incentivos para veículos compartilhados ou investimento em transporte privado sob demanda — o poder público prefere o caminho mais fácil da proibição e da multa. O resultado é uma falsa solução que transfere o problema para o bolso do cidadão. Pesquisa da Câmara de Comércio de Medellín de 2025 indicou que 68% dos motoristas consideram a restrição inútil ou prejudicial, mas a prefeitura insiste em mantê-la, alimentando uma máquina burocrática que gera empregos públicos e receitas de multas — estimadas em 250 bilhões de pesos (cerca de R$ 300 milhões) por ano.
Contraponto: os defensores da medida argumentam que, sem o 'Pico y Placa', o trânsito seria ainda pior e a poluição aumentaria. Citam estudos da Universidade Nacional da Colômbia apontando redução de 15% nas emissões de CO2 nas horas de restrição. No entanto, esses dados ignoram o efeito de deslocamento: os veículos proibidos em um horário simplesmente passam a circular fora dele, gerando congestionamento noturno e maior consumo total de combustível. Além disso, a melhora pontual na qualidade do ar não compensa o custo social e econômico. Na prática, o Estado colombiano escolheu o caminho menos arrojado: restringir a liberdade em vez de modernizar as vias. Enquanto isso, cidades como Medellín seguem com malha viária obsoleta — 60% das ruas ainda têm pavimento original de 1980, segundo o último censo de infraestrutura.
Por Renan Filho · 2026-09-24