Os moradores de Medellín que dependem do carro para trabalhar ou tocar seus negócios precisam redobrar a atenção nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026. O sistema Pico y Placa, que restringe a circulação de veículos conforme o final da placa, está em vigor das 5h às 10h e das 16h às 21h. Para esta data, estão proibidos de trafegar os automóveis com placas terminadas em 1, 2, 3 e 4 – uma variação que depende do calendário divulgado pela Secretaria de Mobilidade de Medellín.
A medida, criada originalmente em 2005, pretende aliviar o trânsito nos horários de pico e reduzir a poluição. Porém, o que se observa na prática é um encarecimento da vida do cidadão que já paga impostos elevados sobre combustíveis, IPVA e pedágios. O custo de oportunidade para quem precisa se deslocar e não tem acesso a transporte público de qualidade é ignorado pelo poder público.
**Por que isso importa**
Medellín é um centro econômico vital para a Colômbia. A cidade concentra indústrias, comércio e serviços que empregam milhares de pessoas. O Pico y Placa, ao restringir a circulação, força os motoristas a buscarem alternativas como transporte público, bicicletas ou aplicativos de mobilidade. Só que a oferta de metrô e ônibus não acompanhou o crescimento da demanda. Dados da Câmara de Comércio de Medellín indicam que, desde a ampliação do rodízio em 2024, o tempo médio de deslocamento dos trabalhadores aumentou 12% – exatamente o oposto do que se prometia.
Além disso, as multas por descumprimento são salgadas: cerca de 500 mil pesos colombianos (aproximadamente R$ 600). Em 2025, a arrecadação com essas infrações cresceu 18% em relação ao ano anterior, segundo balanço da prefeitura. Ou seja, o Estado não apenas impõe restrições à liberdade de ir e vir, como também lucra com elas.
**Análise FORTIS**
A lógica do Pico y Placa é a mesma de outras intervenções municipais na América Latina: o Estado parte do pressuposto de que sabe melhor do que o cidadão como gerenciar sua mobilidade. Nada mais distante do liberalismo. O livre mercado oferece soluções mais eficientes: pedágios urbanos com preços dinâmicos, estacionamentos rotativos geridos por apps, investimento privado em corredores de ônibus e até mesmo a abertura de novas vias com recursos da iniciativa privada. Em vez disso, opta-se por uma medida punitiva que atinge principalmente quem não pode se dar ao luxo de morar perto do trabalho ou de usar o metrô.
O pior é que a prefeitura de Medellín, em nota oficial, defende a continuidade do sistema como “ferramenta indispensável para a sustentabilidade”. Ora, sustentabilidade sem crescimento econômico é um luxo que só países ricos podem bancar. Na Colômbia, com 40% da população na informalidade, cada dia perdido no trânsito é dinheiro que deixa de circular.
**Contraponto**
Defensores da medida apontam que a frota de Medellín cresceu 30% entre 2015 e 2025, e que, sem o Pico y Placa, os engarrafamentos seriam ainda piores. Estudos da Universidade Nacional da Colômbia mostram que, nos horários de pico, a velocidade média nas principais avenidas subiu de 12 km/h para 18 km/h após a implementação do rodízio. A redução de emissões de CO₂ também é citada como benefício ambiental.
Esses dados, porém, ignoram o custo humano. A economia de tempo no trânsito é anulada pelo tempo perdido para se adaptar ao rodízio – seja acordando mais cedo, seja usando transporte lotado. E o ganho ambiental é pífio diante da poluição gerada por indústrias que o governo insiste em não fiscalizar adequadamente.
**P: O que fazer se precisar circular durante o Pico y Placa em Medellín?** R: É necessário verificar diariamente o calendário oficial no site da Secretaria de Mobilidade. Carros com placas restritas podem ser multados se trafegarem nos horários proibidos. Existem exceções para veículos elétricos, de emergência, transporte escolar e pessoas com deficiência, desde que cadastrados.
**P: Há alguma alternativa ao Pico y Placa que o mercado poderia oferecer?** R: Sim. Cidades como Cingapura e Londres adotam pedágios urbanos com tarifas variáveis, onde o motorista paga para circular em horários de pico – e o dinheiro é reinvestido em infraestrutura. Outra opção é o incentivo a aplicativos de carona solidária, que reduzem o número de veículos sem necessidade de coerção estatal.
Por Renan Filho · 2026-09-23