A cada semestre, a mesma história: o motorista calenho acorda e confere o calendário do pico e placa para não ser multado. Nesta quarta-feira, 23 de setembro de 2026, a restrição em Cali atinge veículos com placas terminadas em 3 e 4, das 6h da manhã às 8h da noite. A medida, que deveria ser temporária, virou permanente em grande parte do ano — e a população paga a conta, tanto em multas quanto em produtividade perdida.
Segundo dados oficiais da Secretaria de Mobilidade de Cali divulgados em nota à imprensa no dia 21 de setembro, a restrição segue o esquema tradicional de rodízio diário, sem exceções para veículos híbridos ou elétricos. A multa para quem desrespeita o pico e placa é de 15 salários mínimos legais vigentes, além da imobilização do veículo. Em 2025, mais de 120 mil infrações foram registradas na cidade, gerando cerca de 18 bilhões de pesos colombianos em arrecadação — dinheiro que, segundo o Tribunal de Contas de Cali, foi destinado majoritariamente ao caixa único da prefeitura, sem contrapartida em obras viárias.
A justificativa oficial é reduzir congestionamentos e melhorar a qualidade do ar. No entanto, um relatório de 2025 do Departamento Nacional de Planeación (DNP) mostrou que o tempo médio de deslocamento em Cali aumentou 12% nos últimos três anos, mesmo com o endurecimento do pico e placa. Ou seja: a restrição não resolveu o problema. O que acontece é que famílias compram um segundo carro — muitas vezes usado e mais poluente — para burlar o rodízio, o que agrava a frota circulante e a emissão de poluentes.
A Fortis News consultou dados abertos da Agência Nacional de Infraestrutura (ANI) que apontam que a Região Metropolitana de Cali recebeu, entre 2020 e 2025, apenas 34% dos investimentos previstos em corredores exclusivos de ônibus e ciclovias. Enquanto isso, a prefeitura aumentou em 22% as taxas de estacionamento e pedágios urbanos. O cidadão paga duas vezes: com impostos e com a própria mobilidade sacrificada.
A lógica liberal-conservadora é clara: o Estado não pode, ao mesmo tempo, restringir a liberdade de ir e vir e falhar em oferecer alternativas. Se o poder público gastasse melhor — cortando supersalários, fundações partidárias e obras faraônicas inacabadas — poderia duplicar o sistema de transporte público sem aumentar um centavo de imposto. Mas não faz. Prefere multar.
Vale um contraponto: defensores da medida argumentam que, sem o pico e placa, o trânsito entraria em colapso total. Dados da Câmara de Comércio de Cali indicam que, nos horários de pico, a velocidade média nas principais vias cai para 9 km/h. De fato, a situação é crítica. Mas a pergunta que a Fortis faz é: por que o Estado não investiu em túneis, viadutos, faixas reversíveis e transporte sobre trilhos? A resposta é tão velha quanto o Brasil e a Colômbia: corrupção, má gestão e prioridades erradas.
O relatório anual de transparência orçamentária da organização Transparência por Colômbia, divulgado em agosto de 2026, mostrou que a Prefeitura de Cali gastou 47% a mais com publicidade institucional do que com manutenção de semáforos. Enquanto isso, motoristas perdem horas no trânsito e correm o risco de levar um comparendo que equivale ao valor de um tanque de combustível.
A verdade factual é que o pico e placa é um imposto disfarçado. O Estado colombiano tributa demais — o país tem uma carga tributária de 29% do PIB, alta para uma economia emergente — e entrega pouco. O motorista de Cali não precisa de mais restrições; precisa de gestão eficiente, menos burocracia e liberdade para escolher seu meio de locomoção.
Por Renan Filho · 2026-09-23