A imagem é difícil de processar: dezenas de crianças e adolescentes encolhidos sob carteiras, professores sussurrando ordens de silêncio, e o som seco de rajadas de fuzil cortando a tarde tropical. Foi assim que 90 estudantes de uma instituição educativa no departamento de Nariño, no sudoeste da Colômbia, viveram um verdadeiro cerco de dez horas, entre a manhã e a noite de quarta-feira, 23 de setembro, enquanto confrontos entre grupos armados ilegais ocorriam nas imediações da escola.
“Afuera los disparos no paraban”, relatou um professor à imprensa local, sob condição de anonimato, descrevendo o clima de pânico que tomou conta do local. A diretora da escola, em declaração à rádio Caracol, confirmou que os alunos foram mantidos em confinamento preventivo, sem acesso a banheiros ou alimentação adequada, até que as forças militares conseguissem abrir um corredor seguro para evacuação.
O caso ocorre na zona rural do município de El Charco, uma região historicamente disputada por dissidências das FARC, ELN e grupos ligados ao narcotráfico. Segundo o comandante da Brigada de Infantaria Mecanizada do Exército colombiano, em entrevista à imprensa nacional, os confrontos começaram por volta das 9h, quando patrulhas militares foram atacadas por emboscadas. A resposta veio com apoio aéreo e terrestre, mas a escola, localizada a menos de 500 metros do epicentro do tiroteio, ficou no meio do fogo cruzado.
O que mais chama a atenção não é a coragem dos professores, que agiram com heroísmo silencioso, mas a ausência crônica do Estado naquela região. Nariño é um dos departamentos com maior presença de cultivos de coca do país, segundo o último relatório do UNODC, e também um dos que menos recebe investimento em infraestrutura e segurança. A escola, por exemplo, não possui muros altos, nem abrigo subterrâneo, nem qualquer estrutura de proteção contra ataques. É uma construção de alvenaria simples, cercada por mata fechada, que serve de alvo fácil para qualquer grupo armado.
Por que isso importa? Porque o episódio não é um caso isolado, mas um sintoma de uma política de segurança que, nos últimos anos, alternou entre a negociação com grupos armados e a repressão pontual, sem nunca estabelecer uma presença estatal permanente e efetiva. O governo de Gustavo Petro, que assumiu com a promessa de promover a “paz total”, já anunciou cessar-fogos bilaterais com várias organizações, mas na prática os combates continuam, e quem paga o preço são civis, especialmente crianças.
No plano econômico, a situação é ainda mais grave. Nariño é um dos departamentos mais pobres da Colômbia, com índices de pobreza monetária superiores a 50%, segundo o DANE. A falta de oportunidades empurra jovens para o recrutamento forçado ou para o cultivo ilícito, alimentando um ciclo vicioso de violência. Enquanto isso, o governo central gasta bilhões de pesos em subsídios e programas assistenciais, mas investe menos de 2% do PIB em segurança e defesa, muito abaixo da média latino-americana. O resultado é que o Estado gasta mal, tributa demais e entrega pouco, como sempre.
A FORTIS NEWS entende que a solução não virá de mais retórica ou de acordos que tratam grupos armados como interlocutores legítimos. A solução virá de um Estado mínimo, mas forte nas suas funções essenciais: segurança pública, justiça e infraestrutura. É preciso que o Exército colombiano tenha autonomia e recursos para patrulhar cada quilômetro de fronteira, que a polícia tenha presença constante nas vilas, e que o governo invista em estradas, energia e escolas dignas, para que a população não dependa do narcotráfico para sobreviver.
Há quem argumente que a negociação é o único caminho, que a força militar não resolve conflitos históricos. Esse argumento, no entanto, ignora os fatos: a Colômbia já tentou a negociação com as FARC em 2016, e o resultado foi a dissidência de grupos que hoje são ainda mais violentos e fragmentados. A “paz total” de Petro, que prevê diálogo com todas as organizações, já sofreu reveses públicos, com o ELN recusando cessar-fogo e os combates se intensificando em várias regiões. O que os 90 estudantes de El Charco precisam não é de um discurso de paz, mas de um Estado que os proteja de verdade.
O governo colombiano, em nota oficial, afirmou que “repudia os fatos e garante que as Forças Militares atuaram com prontidão para proteger a população civil”. A declaração é vazia diante das dez horas de terror vividas por crianças indefesas. Se o Estado estivesse presente de forma efetiva, com bases militares e inteligência local, os confrontos não teriam ocorrido a 500 metros de uma escola. A verdade é que a ausência estatal é a principal arma dos grupos armados.
Enquanto isso, os 90 estudantes voltaram para casa, muitos ainda em estado de choque. A escola permanecerá fechada por tempo indeterminado, e as aulas foram suspensas. A pergunta que fica é: quantos episódios como esse serão necessários para que as autoridades colombianas entendam que segurança não é gasto, é investimento? O liberalismo clássico sempre reconheceu que a proteção da vida e da propriedade é a primeira função do Estado. Quando o Estado falha nisso, tudo o mais é fachada.
A FORTIS NEWS seguirá monitorando o caso e cobrando das autoridades uma resposta efetiva. A população de Nariño, que já sofre com a violência há décadas, merece mais do que promessas. Merece um Estado que cumpra o seu papel.
Por Renan Filho · 2026-09-24