A manhã desta quinta-feira em Cali amanheceu com um cenário incomum: efetivos do Exército Nacional posicionados nas imediações da Universidad del Valle (Univalle), principal instituição de ensino superior do sul da Colômbia. A medida, anunciada pelo governo de Gustavo Petro como parte do plano 'Choque Seguridad' para a região do Vale do Cauca, já era esperada após a escalada de homicídios e extorsões nas comunas próximas ao campus. Mas a resposta das associações estudantis e de parte do corpo docente foi imediata e dura: o que seria uma operação de proteção virou, na prática, outro capítulo da polarização colombiana.
As imagens de blindados e fuzis a menos de 200 metros das faculdades de ciências humanas geraram comentários inflamados nas redes sociais. O governador do Vale do Cauca, a conservadora Dilian Francisca Toro, declarou à imprensa local que 'segurança não se discute com ideologia, se impõe com presença do Estado'. Do outro lado, parlamentares do Pacto Histórico, base de Petro, classificaram a ação como 'provocação desnecessária' e exigiram a retirada imediata das tropas. A reitoria da Univalle, em nota oficial, pediu 'diálogo e desescalada', mas também reconheceu que 'a comunidade não pode viver refém da criminalidade'.
O contexto regional explica a tensão. Cali, capital do Vale do Cauca, encerrou 2025 com a taxa de homicídios mais alta dos últimos oito anos, segundo o Observatório de Segurança da cidade. As comunas 13, 14 e 15, que circundam a Univalle, concentram 40% dos casos de extorsão denunciados no departamento. Facções ligadas ao narcotráfico e ao 'Gulf Clan' disputam o controle do microtráfico universitário, um mercado que movimenta milhões de pesos mensais. A presença militar busca, em tese, desarticular essas redes e garantir a segurança de mais de 30 mil estudantes que circulam diariamente pelo campus. Mas a história colombiana cobra um preço: para uma geração que cresceu vendo o Exército associado a estigmas de violações de direitos humanos, a farda ainda desperta desconfiança.
Por que isso importa? Porque o debate colombiano reflete uma escolha universal mal resolvida: como garantir segurança sem transformar a vida civil em zona de guerra? Para o pensamento liberal-conservador, a resposta é óbvia — o Estado deve proteger a vida e a propriedade, inclusive em espaços acadêmicos. A autonomia universitária não pode ser um escudo para o crime organizado. Um campus que não consegue garantir a integridade física de seus alunos e professores falha em sua missão primordial: o ensino. Não existe liberdade acadêmica em um ambiente sitiado pelo medo. A esquerda colombiana, no entanto, insiste em tratar qualquer uniforme como ameaça existencial, ignorando que o verdadeiro inimigo da comunidade acadêmica é o bandido armado, não o soldado legalmente constituído.
A análise do FORTIS NEWS é direta: a esquerda latino-americana construiu um fetiche com a palavra 'segurança', tratando-a como sinônimo de autoritarismo. Mas a realidade social desmente essa narrativa. As mesmas lideranças que agora gritam contra o Exército na Univalle são as que, há anos, negligenciam políticas de segurança básica em nome de um 'pacifismo' seletivo. O resultado não é um ambiente mais progressista, e sim um vácuo de poder preenchido por criminosos que, esses sim, não têm qualquer compromisso com direitos humanos. A Operação Choque Seguridad pode não ser a solução ideal — um estado mínimo eficiente priorizaria inteligência policial em vez de ostentação militar — mas é a resposta possível de um Estado que se tornou refém da própria inação.
Contudo, é preciso registrar o contraponto com honestidade analítica. A história colombiana é marcada por episódios em que a presença militar em contexto urbano serviu para reprimir protestos legítimos, como as manifestações estudantis de 2021 que deixaram dezenas de feridos na mesma Cali. A memória institucional do Exército colombiano, infelizmente, não é um currículo imaculado. A desconfiança da comunidade acadêmica, portanto, não é pura má-fé ideológica. O governo Petro, um ex-guerrilheiro que já chamou militares de 'assassinos' no passado, agora tenta se apresentar como paladino da ordem — uma contradição que alimenta a suspeita de que a operação tenha motivação política. A reitoria da Univalle, acuada, tenta equilibrar-se entre o dever de proteger sua comunidade e a pressão de uma base estudantil radicalizada.
O caminho pragmático deveria ser uma força-tarefa composta por policiais especializados em inteligência criminal, com apoio logístico militar apenas em zonas estratégicas, mas longe das áreas de convivência acadêmica. A presença de soldados com fuzis de assalto dentro de um raio de 200 metros de salas de aula não dissuade o crime organizado — ela apenas desloca o problema para bairros vizinhos. Se o objetivo é proteger o campus, a medida mais eficaz seria um cordão de isolamento com câmeras de reconhecimento facial e patrulhamento motorizado, sem transformar a universidade em uma praça de guerra. O governo Petro, no entanto, parece mais interessado em construir a imagem de 'estado forte' para sua base eleitoral do que em resolver o problema estrutural da segurança no Vale do Cauca.
A verdade factual é que nenhuma das partes está totalmente certa ou totalmente errada. A esquerda erra ao romantizar o crime e demonizar as Forças Armadas. A direita erra ao acreditar que tanques nas esquinas resolvem o que a inteligência e a investigação criminal deveriam resolver. O crescimento econômico do Vale do Cauca, impulsionado pelo agronegócio e pela indústria de serviços, depende de um ambiente de previsibilidade jurídica e física. Investidores estrangeiros olham para Cali e veem uma cidade em chamas, e isso não é pauta ideológica — é matemática econômica. A segurança pública não é um tema de direita ou de esquerda; é o pré-requisito para qualquer projeto de sociedade civilizada.
Por Renan Filho · 2026-09-24