FORTIS
← FORTIS
Seguranca

Los Pachenca anunciam fim do paro armado em Magdalena e La Guajira após morte de alias Cholo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

Grupo criminoso declarou que suspenderá ações armadas a partir de sexta-feira (25), em resposta à morte de seu líder. Decisão expõe fragilidade do Estado colombiano e levanta dúvidas sobre a real capacidade de controle territorial.

O grupo criminoso ‘Los Pachenca’ anunciou, por meio de comunicado publicado em redes sociais na noite desta quinta-feira (24), o fim do paro armado que mantinha nos departamentos de Magdalena e La Guajira, no norte da Colômbia. A trégua, segundo o texto, entra em vigor a partir da meia-noite de sexta-feira, 25 de setembro de 2026, e foi motivada pela morte de seu principal líder, conhecido como alias Cholo, ocorrida em confronto com forças de segurança no último domingo (20).

O comunicado, atribuído ao “Estado-Maior dos Pachenca”, afirma que a decisão é “um gesto de respeito à memória do comandante Cholo” e que o grupo “não deseja mais derramamento de sangue entre irmãos colombianos”. A mensagem foi compartilhada em perfis verificados de jornalistas locais e em grupos de WhatsApp que monitoram a região. Até o momento, o governo colombiano, por meio do Ministério da Defesa, não emitiu nota oficial sobre o anúncio.

O paro armado havia sido decretado em 12 de setembro, após a prisão de dois integrantes do grupo em Santa Marta. Durante duas semanas, a população de municípios como Fundación, Aracataca e Riohacha sofreu com toques de recolher informais, fechamento forçado de comércios e ameaças diretas a fazendeiros que se recusassem a pagar “vacunas” (extorsões). Ao menos 12 ataques a veículos de carga foram registrados, segundo a Federação Nacional de Transportadores da Colômbia.

**Por que isso importa**

O fim do paro armado não significa o fim da atuação criminosa de Los Pachenca. O grupo, que surgiu como uma dissidência das extintas Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), controla rotas do narcotráfico no litoral caribenho e explora mineração ilegal na Serra Nevada de Santa Marta. A morte de alias Cholo, um dos últimos líderes históricos, cria um vácuo de poder que pode tanto fragmentar a organização quanto acelerar uma guerra interna por herança.

Para o Estado colombiano, a trégua é um alívio tático, mas revela a incapacidade crônica de garantir segurança pública sem depender de “acordos” com criminosos. Desde 2016, com o acordo de paz com as FARC, o governo colombiano gastou mais de 15 bilhões de dólares em programas de reintegração e desenvolvimento rural, segundo dados do Departamento Nacional de Planeación (DNP). No entanto, a taxa de homicídios em Magdalena e La Guajira continua acima da média nacional — 32 por 100 mil habitantes contra 24 no país — e a arrecadação de impostos na região cresceu 18% nos últimos três anos, sem contrapartida visível em infraestrutura ou policiamento ostensivo.

**Análise FORTIS**

A decisão de Los Pachenca expõe a lógica de mercado que rege o crime organizado. A morte de alias Cholo eliminou o principal ativo de coordenação do grupo. Sem ele, a capacidade de impor disciplina e cobrar “pedágios” cai drasticamente. Em vez de continuar um paro armado que já custava perdas diárias estimadas em 2 milhões de dólares ao comércio local — segundo a Câmara de Comércio de Santa Marta —, a nova liderança optou por recuar e reorganizar as finanças.

Não há heroísmo ou humanitarismo. É uma decisão de custo-benefício. O Estado colombiano, que tributa pesadamente a classe média e o setor produtivo — a alíquota média de imposto de renda para empresas é de 35%, uma das mais altas da América Latina —, falha em entregar o bem mais básico: a segurança. Enquanto isso, grupos criminosos operam como verdadeiros “governos paralelos”, cobrando impostos ilegais e oferecendo “proteção” a quem paga.

A ausência de uma reação oficial robusta por parte de Bogotá é sintomática. O presidente Gustavo Petro, que assumiu em 2022 com a promessa de “paz total”, já negociou cessar-fogos com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e com dissidências das FARC, mas nenhum desses acordos resultou em desarmamento efetivo. Pelo contrário: a taxa de sequestros na Colômbia subiu 22% em 2025, conforme o Ministério da Defesa. A estratégia de dialogar com criminosos, sem contrapartidas reais de desmonte financeiro, apenas fortalece a percepção de que o crime compensa.

**Contraponto**

Há quem veja no anúncio um sinal positivo. O senador colombiano Iván Cepeda, do partido governista Pacto Histórico, declarou à rádio Caracol que “a decisão de Los Pachenca mostra que o diálogo é o caminho”. Cepeda defende que a trégua abre espaço para negociações formais de submissão à Justiça. No entanto, os dados históricos contradizem essa narrativa. Em 2023, o grupo Clan del Golfo também suspendeu um paro armado após a extradição de seu chefe, Dairo Antonio Úsuga, conhecido como Otoniel. Menos de seis meses depois, as extorsões voltaram com força total, e a Força Pública registrou 47 homicídios ligados ao grupo apenas no primeiro trimestre de 2024.

O risco de repetição do padrão é alto. Enquanto o Estado não quebrar a espinha financeira do crime organizado — por meio de combate à lavagem de dinheiro, rastreamento de ativos e redução da carga tributária que empurra pequenos empreendedores para a informalidade —, tréguas como essa serão apenas pausas táticas.

**1. O que é o grupo Los Pachenca e por que ele é relevante para o Brasil?** Los Pachenca é uma organização criminosa colombiana que atua no narcotráfico, mineração ilegal e extorsão nos departamentos de Magdalena e La Guajira. Sua relevância para o Brasil está na conexão com rotas de cocaína que abastecem o mercado brasileiro e europeu. O grupo mantém alianças com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para o envio de drogas via portos do Caribe colombiano. Qualquer instabilidade na região pode afetar os preços e a oferta de cocaína no Brasil, além de aumentar a violência nas fronteiras amazônicas.

**2. A morte de alias Cholo realmente enfraquece Los Pachenca?** Sim, no curto prazo. Alias Cholo era o principal articulador político e militar do grupo, responsável por mediar disputas internas e negociar com cartéis mexicanos. Sua morte cria uma disputa sucessória que pode levar a cisões violentas. No entanto, a estrutura financeira do grupo — que inclui lavagem de dinheiro em cassinos de Santa Marta e investimentos em gado — permanece intacta. Sem uma ação coordenada do Estado para confiscar esses ativos, a organização pode se recompor em poucos meses.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.