A La Liga, entidade que organiza o futebol profissional espanhol, anunciou que acompanhará o processo de remodelação tecnológica do estádio Atanasio Girardot, em Medellín, com previsão de entrega para 2028. A informação foi divulgada em comunicado conjunto da La Liga e do Ministério do Esporte da Colômbia, publicado na última quarta-feira. O projeto visa transformar a arena, casa do Atlético Nacional, em um dos estádios mais modernos da América Latina, com foco em conectividade, sistemas de iluminação LED, gramado sintético de última geração e infraestrutura para transmissão digital.
Segundo a nota oficial, a La Liga atuará como consultora técnica, fornecendo expertise em gestão de estádios e tecnologias de transmissão, enquanto o governo colombiano arcará com a maior parte dos custos — estimados inicialmente em 400 milhões de dólares, conforme dados da prefeitura de Medellín. O valor, no entanto, já é alvo de críticas de economistas locais, que apontam que o orçamento pode dobrar até 2028, seguindo a tradição de megaprojetos públicos na região.
Por que isso importa? O Atanasio Girardot é um símbolo do futebol colombiano, palco de partidas históricas e da final da Copa América 2001. Sua modernização é vista como necessária para manter a competitividade do país no cenário esportivo global, especialmente após a realização de eventos como a Copa do Mundo Feminina Sub-20 de 2024 na Colômbia. No entanto, o envolvimento de uma entidade privada estrangeira como a La Liga levanta questões sobre soberania e o real benefício para o contribuinte colombiano.
Análise FORTIS: O modelo de parceria público-privada (PPP) é, em tese, superior à gestão exclusivamente estatal. A La Liga tem um histórico de inovação e eficiência na gestão de estádios na Espanha, onde clubes como Barcelona e Real Madrid geram receitas bilionárias com suas arenas. No entanto, o governo colombiano, conhecido por sua alta carga tributária e baixa eficiência na execução de obras, pode transformar a reforma em mais um poço de dinheiro público sem retorno proporcional. Dados do Banco Mundial indicam que 70% das grandes obras de infraestrutura na América Latina sofrem com atrasos e estouros de orçamento. O prazo de quatro anos para uma reforma tecnológica, embora pareça razoável, é longo demais para os padrões do setor privado — em países como os EUA, estádios similares são renovados em 18 a 24 meses.
Além disso, a La Liga não está investindo capital próprio. Ela atua como prestadora de serviços, o que significa que o risco financeiro recai inteiramente sobre o Estado colombiano. Em declaração à imprensa local, o ministro do Esporte, Astrid Rodríguez, afirmou que a parceria “garantirá que o estádio atenda aos mais altos padrões internacionais sem custos adicionais para o governo”. A afirmação é contraditória com a experiência: consultorias privadas em obras públicas frequentemente geram custos ocultos, como taxas de supervisão e royalties por uso de tecnologia proprietária.
Contraponto: Defensores do projeto argumentam que a modernização atrairá mais jogos internacionais, turismo e investimentos, gerando empregos e receitas para Medellín. A prefeitura local estima que o estádio reformado poderá sediar até 15 eventos de grande porte por ano, contra os atuais 5. Isso, em tese, aumentaria a arrecadação de impostos e movimentaria a economia local. No entanto, o otimismo esbarra na realidade de outros estádios latino-americanos que se tornaram elefantes brancos após reformas financiadas com dinheiro público. O Maracanã, no Rio de Janeiro, é um exemplo emblemático: após receber bilhões em investimentos para a Copa de 2014, hoje opera com capacidade ociosa e gera prejuízos anuais para o Estado. Na Colômbia, o estádio Metropolitano de Barranquilla também passou por reformas milionárias e raramente é utilizado em sua plenitude.
Outro ponto crítico é a transparência. Até o momento, não foram divulgados os termos contratuais entre a La Liga e o governo colombiano. A ausência de cláusulas de desempenho e multas por atraso é um risco adicional. Em publicação nas redes sociais, o senador colombiano David Barguil, do partido Conservador, questionou: “Por que entregar a gestão tecnológica de um estádio público a uma entidade estrangeira sem licitação internacional?” A pergunta ecoa a desconfiança de setores da direita local, que veem na parceria uma forma de endividamento disfarçado.
A FORTIS NEWS defende que o Estado deve se limitar ao essencial — segurança, justiça e infraestrutura básica. Estádios de futebol, por mais simbólicos que sejam, não são prioridade para o contribuinte, especialmente em um país onde a educação e a saúde pública enfrentam graves deficiências. Se a iniciativa privada quer modernizar o Atanasio Girardot, que o faça com seus próprios recursos, em troca de concessões de longo prazo e exploração comercial da arena. O modelo espanhol, onde clubes como o Real Madrid financiam suas próprias reformas, é mais saudável do que depender de consultorias que não arriscam capital.
Por Renan Filho · 2026-09-24