O Atlético Junior, maior clube da região caribenha da Colômbia, realizou na última semana um treino aberto no Estádio Metropolitano Roberto Meléndez para testar o novo gramado híbrido, que substitui o piso natural danificado. O campo é parte de uma reforma orçada em cerca de 12 milhões de dólares, financiada com recursos do governo departamental de Atlántico e da prefeitura de Barranquilla. Segundo o secretário de Infraestrutura, Carlos García, em entrevista ao jornal El Heraldo, a obra já está em 89% de conclusão e deve ser entregue em até 45 dias.
O técnico do Junior, Arturo Reyes, e os jogadores Sebastián Viera e Teófilo Gutiérrez participaram do teste. Em declaração à imprensa, Viera afirmou que o novo gramado está “em ótimas condições, com boa absorção de impacto e drenagem”. Teófilo, em publicação nas redes sociais, disse que o campo “é um dos melhores que já vi na Colômbia”. As declarações foram replicadas pelo clube como prova de qualidade.
No entanto, o que parece ser uma boa notícia para o futebol colombiano esconde um velho problema: o alto custo e a demora na execução de obras públicas. O estádio, inaugurado em 1986, já passou por várias reformas, mas a atual era necessária desde 2018, quando a Copa América de 2021 (adiada para 2022) expôs deficiências. O governo local gastou mais de 40 milhões de dólares nos últimos 10 anos em reformas pontuais, sem nunca resolver a drenagem precária e o desgaste do gramado. A opção pelo híbrido, que mistura grama natural com fibras sintéticas, tem custo médio de 800 mil dólares por campo, mas o valor total do contrato inclui sistemas de irrigação e drenagem, o que justifica parte do montante.
Para o contribuinte colombiano, a pergunta que fica é: por que uma obra que poderia ter sido feita em parceria com a iniciativa privada demorou tanto e custou tão caro? O modelo de concessão do estádio, ainda sob gestão pública, impede que o Junior ou outras equipes invistam diretamente. Enquanto isso, estádios privados como o do Deportivo Cali (Estadio Deportivo Cali) ou do Atlético Nacional (Atanasio Girardot, administrado por uma fundação) têm gramados superiores com menor aporte de recursos públicos.
**Por que isso importa** A reforma do Metropolitano não é apenas uma questão esportiva. Ela simboliza o padrão de má gestão pública na América Latina: projetos atrasados, estouros de orçamento e baixa transparência. A Colômbia, sob o governo de Gustavo Petro, tem priorizado gastos sociais em detrimento de infraestrutura, mas o estádio recebeu dinheiro federal. Em 2022, a Contraloría Geral da República apontou sobrepreço de 18% em contratos anteriores. Desta vez, a prefeitura de Barranquilla afirma que houve licitação e que o custo está dentro do mercado. Contudo, sem auditoria independente, a credibilidade é limitada.
**Análise FORTIS** Defendemos livre mercado e estado mínimo, mas não podemos ser ingênuos. O gramado híbrido é superior e aumenta a capacidade de uso do estádio, que poderá receber shows e eventos, gerando receita. Porém, a gestão pública colombiana repete o erro de financiar com impostos o que poderia ser privado. Se o Junior e a seleção colombiana são os principais usuários, que paguem aluguel justo. O estado deveria regular, não operar. Enquanto houver subsídio fiscal, não haverá incentivo para cortar custos ou inovar. A reforma deveria ter sido uma PPP (Parceria Público-Privada) com cláusulas de desempenho.
**Contraponto** Especialistas em políticas públicas, como a professora Ana María Rojas, da Universidad del Norte, defendem que o estádio é patrimônio público e que a reforma beneficia a população de baixa renda com acesso a eventos esportivos gratuitos ou subsidiados. Em entrevista à Rádio Nacional, ela afirmou que “o estado deve garantir infraestrutura de qualidade, especialmente em regiões com desigualdade”. O argumento tem mérito, mas ignora que o dinheiro público poderia ser melhor aplicado em saúde ou educação. O estádio já gera receita com aluguel e bilheteria que, se bem administrada, cobriria a manutenção sem novos impostos.
Por Renan Filho · 2026-09-24