O fogo que consome a região de Villa de Leyva, na Colômbia, já não pode ser tratado como acidente de verão. O que eram 350 hectares devastados na última semana saltou para 1.200 hectares de vegetação nativa reduzidos a cinzas, segundo dados oficiais da Unidad Nacional de Gestión del Riesgo (UNGRD). A informação, divulgada em boletim à imprensa na manhã desta terça-feira, expõe não apenas a força das chamas, mas a absoluta falta de preparo do Estado colombiano para lidar com crises que, em grande parte, são previsíveis.
A emergência em Villa de Leyva, um dos destinos turísticos mais procurados do país, não é apenas uma tragédia ambiental. É um retrato cruel de como o discurso político sobre mudanças climáticas, tão recorrente em Cartagena e Bogotá, não se traduz em políticas públicas eficazes quando o fogo está no mato. Enquanto isso, a imprensa internacional mostra imagens de helicópteros improvisados e bombeiros voluntários lutando contra as chamas com equipamentos ultrapassados.
O governo de Gustavo Petro, que já declarou a situação como 'desastre natural', tenta agora justificar a demora no combate com a tal 'emergência climática global'. No entanto, dados do próprio Ideam (Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales) indicam que a região de Boyacá enfrenta condições de seca severa desde o início do ano. Ou seja: o aviso estava dado, e a resposta foi a mesma de sempre — lentidão, retórica e ausência de ação preventiva.
Para o contribuinte colombiano, a conta é dupla. Primeiro, paga-se pelos estragos de um incêndio que poderia ter sido contido nas primeiras 24 horas. Depois, arca-se com a reconstrução de uma área de preservação que gera empregos no turismo e renda para pequenos empreendedores locais. Os hotéis fazenda, restaurantes e guias turísticos de Villa de Leyva, que dependem da natureza intocada para sobreviver, agora veem seu sustento virar fumaça.
A análise do FORTIS é direta: o Estado colombiano, assim como o brasileiro, é especialista em administrar crises, não em resolvê-las. A estrutura estatal inchada, que consome mais de 50% do PIB na região, falha justamente no básico — que é garantir a segurança pública e a proteção do patrimônio ambiental com investimento em tecnologia, monitoramento e prevenção. Em vez disso, opta-se pelo teatro político de culpar o capitalismo e as mudanças climáticas por problemas que começam na falta de manejo florestal e na ausência de políticas de combate a incêndios.
Importante ressaltar, para não cair em narrativa rasa, que a esquerda colombiana também não tem monopólio da incompetência. Governos anteriores, de todas as matizes, falharam em criar uma política de defesa civil minimamente efetiva. O que se vê é um ciclo vicioso: o fogo queima, a mídia noticia, os políticos prometem, e nada muda até a próxima temporada de seca. E assim, a cada ano, mais hectares são consumidos, mais famílias perdem suas casas, e mais pequenos negócios fecham as portas.
Os números, aliás, são impiedosos. Enquanto a Colômbia discute reformas estruturais no Congresso, o país vê sua biodiversidade virar fumaça em tempo recorde. A conta para o setor privado, especialmente o de turismo ecológico, é imediata: menos floresta significa menos atrativo, menos empregos e mais pobreza no interior. Um verdadeiro tiro no pé de uma economia que já sofre com a desaceleração global.
O contraponto, é claro, vem dos defensores do atual governo. Para eles, a crise em Villa de Leyva é uma 'prova' da necessidade de mais intervenção estatal e de um 'Novo Pacto Verde' para a região. O que não explicam é como mais burocracia e mais gasto público resolveriam o problema da falta de equipamentos e de logística no combate às chamas. A resposta, que a história insiste em mostrar, é que o caminho é o inverso: menos Estado, menos impostos e mais liberdade para que a sociedade civil e o setor privado possam agir com agilidade.
Enquanto isso, os bombeiros voluntários de Villa de Leyva — heróis anônimos que não esperaram o governo agir — seguem na linha de frente, arriscando suas vidas com mangueiras e abanos. Eles são a prova de que a solução para os problemas do país não virá de Brasília, nem de Bogotá, mas da coragem e da iniciativa de quem trabalha e produz.
O fogo em Villa de Leyva é uma lição amarga. Mas, como toda crise, também é uma oportunidade. A oportunidade de se repensar o papel do Estado, de se priorizar a eficiência em vez da retórica e de se reconhecer que o meio ambiente se protege com desenvolvimento sustentável, não com discurso ideológico. Até lá, as cinzas continuarão a cobrir não apenas as colinas de Boyacá, mas também a esperança de um futuro melhor para a América Latina.
A pergunta que fica é: quantas tragédias mais serão necessárias para que a classe política da região acorde para a realidade? Enquanto isso, o fogo queima, o tempo passa e as florestas — e os empregos — viram pó.
Por Renan Filho · 2026-09-22