Um incêndio florestal de grandes proporções consome os cerros nororientais de Popayán, capital do departamento de Cauca, desde a manhã de terça-feira (22). As chamas, impulsionadas por ventos fortes e pela vegetação seca típica do fim do verão, já devastaram aproximadamente 120 hectares de mata nativa e ameaçam residências nas encostas dos bairros El Lago, Villa del Norte e Los Álamos. Até o momento, não há registro de vítimas fatais, mas 14 famílias foram evacuadas preventivamente, segundo a Defesa Civil local.
O Corpo de Bombeiros de Popayán, com apenas 45 homens ativos e três caminhões-pipa operacionais, trava uma batalha desigual contra o fogo. Em publicação nas redes sociais, o comandante da corporação, capitán Juan Carlos Muñoz, declarou: "Estamos no limite da capacidade operacional. Precisamos de apoio aéreo e de mais brigadistas, mas o pedido ao governo nacional ainda está em análise burocrática." A Defesa Civil de Cauca confirmou que solicitou à Unidad Nacional para la Gestión del Riesgo de Desastres (UNGRD) o envio de dois helicópteros com bambi bucket, mas até a noite de quarta-feira (23) não obteve resposta.
O contexto é agravado pela geografia da região. Os cerros nororientais de Popayán são áreas de ocupação irregular, onde famílias de baixa renda construíram casas sem qualquer planejamento urbano. A ausência de vias de acesso adequadas dificulta a chegada dos bombeiros e a evacuação dos moradores. Segundo dados oficiais da Alcaldía de Popayán, 30% das habitações nessas encostas não possuem registro predial, o que inviabiliza investimentos públicos em infraestrutura de prevenção — um sintoma do Estado colombiano que tributa pesadamente (a carga tributária chega a 38% do PIB) e entrega serviços precários.
Por que isso importa? O incêndio em Popayán não é um acidente climático isolado. Nos últimos cinco anos, a Colômbia registrou uma média de 12 mil focos de incêndio florestal por ano, com pico de 18 mil em 2023, segundo o Instituto de Hidrología, Meteorología y Estudios Ambientales (IDEAM). O governo Gustavo Petro, de orientação socialista, prometeu em 2022 um plano nacional de prevenção de desastres com orçamento de 1,2 trilhão de pesos colombianos (cerca de R$ 1,5 bilhão). No entanto, uma auditoria da Contraloría General de la República, divulgada em março de 2024, revelou que apenas 34% dos recursos foram executados, com desvios para programas de "desenvolvimento social" sem relação com a gestão de riscos. O resultado é que, em 2024, a UNGRD opera com 60% do pessoal necessário e equipamentos obsoletos — os helicópteros disponíveis têm idade média de 25 anos.
Análise FORTIS: A tragédia em Popayán é um microcosmo do fracasso do Estado centralizador colombiano. Enquanto o governo nacional gasta bilhões em subsídios a cooperativas e em projetos de "paz total" que não reduziram a violência, as prefeituras e os corpos de bombeiros locais são sufocados pela burocracia e pela falta de autonomia fiscal. A solução liberal-conservadora é clara: descentralizar a gestão de riscos, permitir que municípios como Popayán contratem seguros privados para desastres naturais e criem fundos de emergência com recursos próprios, sem depender de autorizações de Bogotá. Além disso, a regularização fundiária nas encostas — com títulos de propriedade claros — estimularia os moradores a investir em prevenção, como a construção de barreiras corta-fogo e o manejo sustentável da vegetação. O livre mercado, com regras claras e menos impostos, é mais eficiente que o Estado paternalista que promete e não cumpre.
Contraponto: Defensores do modelo atual argumentam que a descentralização aumentaria as desigualdades regionais, já que municípios pobres como Popayán não teriam receita para financiar brigadas próprias. O prefeito de Popayán, Juan Carlos López Castrillón, em declaração à imprensa local, afirmou: "Precisamos de solidariedade nacional, não de competição entre prefeituras." A crítica tem mérito parcial: sem um sistema de transferências bem desenhado, a descentralização pode deixar cidades menores desamparadas. No entanto, o modelo vigente já falhou — a UNGRD recebeu recursos e não os aplicou. Uma alternativa de livre mercado seria a criação de um fundo de catástrofes lastreado em títulos privados, como o Cat Bond usado no México e no Chile, que paga indenizações rápidas sem depender do orçamento público. Enquanto isso, o fogo continua a queimar.
Por Renan Filho · 2026-09-23