O centro de Cali, coração comercial da terceira maior cidade da Colômbia, tornou-se um laboratório do fracasso estatal. Desde o início de 2025, a chamada Operação Iron (Operación Hierro) promete desmantelar as redes criminosas que dominam a região, mas os números indicam que o crime organizado não apenas resiste como se adapta.
Segundo relatório da Polícia Nacional da Colômbia divulgado em setembro, mais de 80% dos comerciantes do centro de Cali afirmam ter sofrido algum tipo de extorsão nos últimos 12 meses. O valor médio exigido por grupos como 'Los Pelusos' e dissidências do 'Clan del Golfo' varia entre 200 mil e 1,5 milhão de pesos colombianos (cerca de R$ 250 a R$ 1.900) por semana. Quem não paga enfrenta desde ameaças verbais até atentados a tiros contra estabelecimentos.
A Operação Iron, lançada em março de 2025 pela Prefeitura de Cali em parceria com a Força Pública, já resultou em mais de 400 prisões e na apreensão de toneladas de drogas. No entanto, conforme denúncia da Federação de Comerciantes de Cali (Fenalco Seccional Valle), as 'ollas' – pontos fixos de venda de crack, cocaína e bazuco – continuam operando a plena luz do dia em ruas como a Carrera 10 e a Calle 15. 'Fechamos uma boca hoje, amanhã abrem duas ao lado', declarou o presidente da Fenalco Valle, em entrevista à rádio Caracol no último dia 10.
Por que isso importa? Porque o centro de Cali não é apenas um problema local. A cidade é um hub logístico para o tráfico de drogas que abastece mercados no Brasil, Europa e Ásia. A desarticulação parcial de uma rede não elimina a demanda nem a oferta – apenas desloca o problema. Para a Fortis News, o caso expõe um dilema clássico do Estado latino-americano: gasta-se muito, tributa-se demais e entrega-se pouco.
O orçamento da Prefeitura de Cali para segurança em 2025 foi de 1,2 trilhão de pesos (aproximadamente R$ 1,5 bilhão), um aumento de 18% em relação a 2024. Ainda assim, a taxa de homicídios no centro subiu 7% no mesmo período, conforme dados do Observatório de Segurança de Cali. O dinheiro público, em grande parte oriundo de impostos municipais e transferências nacionais, parece evaporar em burocracia e corrupção.
Análise Fortis: o problema não é a falta de operações, mas a ausência de um Estado mínimo eficiente. O governo de Gustavo Petro, de orientação esquerdista, aposta em discursos de 'paz total' e negociação com grupos armados, enquanto a criminalidade se institucionaliza. Em maio, o presidente anunciou a extensão do cessar-fogo com o 'Clan del Golfo' – a mesma organização que controla boa parte das extorsões em Cali. A contradição é evidente: não se pode desmantelar um império criminoso com caneta e diálogo quando ele financia sua estrutura com o sangue do comércio local.
Contraponto: defensores da 'paz total' argumentam que a redução da violência passa por acordos que diminuam o confronto armado. Dados oficiais mostram que, em nível nacional, os homicídios caíram 12% em 2024. Porém, a queda se concentra em áreas rurais e de conflito armado tradicional. Nos centros urbanos como Cali, Medellín e Bogotá, a extorsão e o microtráfico avançam porque o Estado não oferece alternativa de segurança jurídica e econômica aos pequenos empreendedores.
O livre mercado, defendido pela Fortis News, não sobrevive onde o contrato social é rompido pela violência. Um comerciante que paga 'vacuna' (extorsão) não está optando por informalidade – está buscando sobrevivência. A solução não passa por mais impostos ou mais programas sociais, mas por um Estado que cumpra sua função básica: garantir a propriedade privada e a integridade física dos cidadãos. Enquanto isso não ocorrer, a Operação Iron será apenas um curativo em uma ferida gangrenada.
Por Renan Filho · 2026-09-24