**Lead**
Uma nova rodada de negociações entre o governo colombiano e o Exército de Libertação Nacional (ELN) teve início nesta semana em Havana, Cuba, marcando a retomada do diálogo após meses de paralisia. O encontro, que reúne delegados de ambas as partes e mediadores internacionais, ocorre em um momento de expectativa para a Colômbia, que busca consolidar a paz com o último grupo guerrilheiro ativo no país. A reunião é a sexta desde a reabertura oficial das conversas sob o governo de Gustavo Petro, em 2022.
**Contexto**
O processo de paz com o ELN tem uma longa história de idas e vindas. As primeiras tentativas sérias ocorreram durante o governo de Juan Manuel Santos (2010-2018), com uma agenda que incluía temas como participação da sociedade civil, cessar-fogo e justiça transicional. No entanto, as conversas foram suspensas após o atentado à Escola de Cadetes da Polícia em Bogotá, em janeiro de 2019, atribuído ao grupo. O ELN negou envolvimento, mas o governo de Iván Duque encerrou os diálogos.
Com a eleição de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da Colômbia, as negociações foram retomadas em novembro de 2022, com um mandato de buscar um acordo de paz definitivo. Desde então, já foram realizadas cinco rodadas, alternando entre cidades como Caracas, Cidade do México e Havana. A atual rodada ocorre após um período de impasse, causado por divergências sobre a extensão do cessar-fogo bilateral e a necessidade de desescalonamento do conflito armado em regiões como o Chocó e o Catatumbo.
As partes já haviam alcançado acordos parciais, como a criação de um fundo para vítimas e a definição de mecanismos de participação cidadã. Contudo, a implementação tem sido lenta, e organizações humanitárias denunciam que a violência contra lideranças sociais e ex-combatentes continua em alta. A presença de grupos armados dissidentes e o avanço do narcotráfico complicam ainda mais o cenário.
**Análise**
A retomada dos diálogos em Havana simboliza um esforço do governo Petro em cumprir uma de suas principais promessas de campanha: a paz total. Para a Colômbia, a resolução do conflito com o ELN representa não apenas o encerramento de uma guerra de décadas, mas também a possibilidade de desmilitarizar regiões historicamente abandonadas pelo Estado. O processo, no entanto, enfrenta desafios estruturais. A fragmentação do ELN em facções com interesses distintos e a falta de controle sobre rotas do narcotráfico tornam as negociações particularmente complexas.
Além disso, a opinião pública colombiana está dividida. Enquanto setores urbanos e a comunidade internacional apoiam o diálogo, parte da população de regiões afetadas pelo conflito demonstra ceticismo em relação a acordos que, no passado, não impediram a reincidência de grupos armados. A mediação de Cuba e Noruega, que têm papel garantidor, é vista como essencial para manter as conversas no rumo certo, mas a ausência de avanços concretos nos temas centrais — como o cessar-fogo definitivo e a entrega de armas — pode levar a um novo colapso.
Para o governo Petro, essa rodada é crucial. Com o mandato presidencial se aproximando do meio do caminho (2026), a necessidade de resultados palpáveis se intensifica. Espera-se que as discussões em Havana abordem a prorrogação do cessar-fogo bilateral, que expira em janeiro de 2026, e a criação de uma comissão de verificação internacional. Analistas apontam que um acordo sobre cessar-fogo, mesmo que temporário, poderia reduzir a violência e criar um ambiente favorável para negociar temas mais espinhosos.
**Fontes**
As informações foram obtidas de comunicados oficiais da Delegação de Paz do Governo colombiano e do Comando Central do ELN, além de relatórios do Escritório do Alto Comissariado para a Paz. Dados contextuais foram baseados em reportagens do periódico El Colombiano e do portal de notícias Semana, bem como em análises do Centro de Recursos para o Análise de Conflitos (CERAC). A situação humanitária nas regiões afetadas foi reportada pela Organização das Nações Unidas (ONU) por meio de seu Escritório para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).
Por Renan Filho · 2026-09-29