A região Caribe da Colômbia, historicamente um dos motores econômicos do país, viveu nos últimos dias um verdadeiro apagão produtivo. O chamado “paro armado” – uma paralisação forçada por grupos armados ilegais, com ameaças diretas a comerciantes, transportadores e moradores – paralisou cidades inteiras, fechou portas, esvaziou ruas e interrompeu o fluxo de bens e pessoas. Os números preliminares, compilados por associações empresariais e câmaras de comércio locais, já apontam para perdas que ultrapassam a casa dos milhões de dólares por dia.
Segundo dados divulgados pela Federación Nacional de Comerciantes (Fenalco) em seu capítulo Atlántico, as vendas do comércio varejista caíram entre 60% e 80% nos dias de paralisação total, especialmente em Barranquilla, Soledad e municípios da área metropolitana. O setor de serviços, incluindo restaurantes, bares e hotéis, registrou queda ainda mais severa, com muitos estabelecimentos simplesmente fechando as portas por medo de represálias.
O transporte público não ficou imune. Em Barranquilla, o sistema Transmetro, que atende cerca de 150 mil passageiros por dia, operou com apenas 30% da frota no auge do bloqueio. As empresas de ônibus intermunicipais suspenderam rotas inteiras, deixando milhares de trabalhadores sem como chegar aos seus empregos e estudantes sem acesso às escolas. A Associação Colombiana de Transportadores (Accot) estimou que o setor perdeu, em apenas três dias, o equivalente a 12 milhões de dólares em receitas não realizadas.
A carga, que é o coração da economia exportadora colombiana, foi a mais atingida. O porto de Santa Marta, principal saída para produtos como carvão, café e banana, viu o movimento de caminhões cair em quase 70%. Na estrada que liga o interior do país ao litoral, a Ruta del Sol, comboios de cargas ficaram retidos por horas, com motoristas relatando ameaças diretas de grupos armados que exigiam a interrupção total das operações. A Sociedade Portuária de Santa Marta divulgou nota técnica informando que o prejuízo direto com a paralisação das atividades de exportação e importação ultrapassou os 8 milhões de dólares, considerando taxas portuárias, mão de obra e demurrage – as multas por atraso na carga e descarga de navios.
A cadeia logística, que já vinha sofrendo com os custos crescentes de combustível e pedágios, agora enfrenta um novo golpe: o custo do seguro de cargas em rotas de risco aumentou em 40%, segundo corretoras locais. Isso significa que o preço final dos produtos – de alimentos a roupas – tende a subir, pressionando ainda mais a inflação que já castiga o bolso do colombiano médio.
Por que isso importa? Porque o paro armado não é um fenômeno natural, nem uma fatalidade climática. É a consequência direta da fragilidade institucional e da ausência do Estado em regiões onde o monopólio da força é contestado por grupos ilegais. A Colômbia gasta bilhões de pesos em programas sociais, mas falha miseravelmente em garantir segurança jurídica e física para quem produz, emprega e investe. Enquanto o governo central debate reformas e discursos de pacificação, os empresários locais – muitos deles pequenos e médios – são obrigados a demitir funcionários, cancelar pedidos e, em alguns casos, fechar as portas definitivamente.
A análise FORTIS é clara: o problema não é a falta de dinheiro, mas a má alocação dele. O Estado colombiano tributa excessivamente a produção formal, sufoca o empreendedor com burocracia e, ao mesmo tempo, não exerce sua função primordial – garantir a ordem e a segurança. O resultado é um ciclo vicioso: a violência afasta o investimento, a falta de investimento reduz a arrecadação, e a arrecadação reduzida impede a modernização da segurança pública. Enquanto isso, o comércio local, que é o maior gerador de empregos formais na região, sangra.
Contraponto e contexto: é preciso reconhecer que o governo colombiano, sob a liderança do presidente Gustavo Petro, tem buscado uma política de “paz total” que inclui negociações com diversos grupos armados. Em declaração à imprensa, o alto comissário para a Paz, Danilo Rueda, afirmou que os diálogos são a única via para desmantelar as estruturas criminosas sem repetir os erros do passado. No entanto, os fatos mostram que, na prática, a ausência de uma resposta firme e coordenada das forças de segurança durante o paro armado apenas reforçou o poder de intimidação desses grupos. A população civil, mais uma vez, paga a conta de uma estratégia que prioriza a retórica em detrimento da ação.
A pergunta que fica é: até quando a Colômbia vai tolerar que sua economia regional seja refém de ameaças armadas? A resposta, infelizmente, não virá de discursos, mas de medidas concretas – como o fortalecimento das polícias locais, a presença efetiva do Estado nas estradas e portos, e a redução da carga tributária que hoje desestimula a formalidade e alimenta a economia paralela, que é o habitat natural dos grupos ilegais.
Por Renan Filho · 2026-09-24