O Contralor General de la República da Colômbia, Jorge Laverde, anunciou nesta quarta-feira (24) a abertura de uma auditoria especial sobre dois megaprojetos públicos em Cartagena: o sistema de proteção costeira contra erosão marinha e o Gran Malecón del Mar, uma orla urbanizada que já consumiu mais de 1,2 bilhão de pesos colombianos (cerca de 1,1 bilhão de reais) desde 2020.
A decisão foi comunicada por meio de um comunicado oficial da Contraloría Delegada para o Setor de Infraestrutura, ao qual o FORTIS teve acesso. O órgão afirma ter identificado “indícios de sobrecustos injustificados, cronogramas descumpridos e possíveis irregularidades nos processos licitatórios”. As obras são executadas pela Unidad Nacional de Gestión del Riesgo de Desastres (UNGRD) e pela Alcaldía de Cartagena, em parceria com o governo nacional.
Segundo dados oficiais da UNGRD, o projeto de proteção costeira — que inclui a construção de espigões, dunas artificiais e a recuperação de manguezais — estava orçado em 650 bilhões de pesos (cerca de 590 milhões de reais) e deveria ter sido concluído em 2024. Até agosto deste ano, apenas 38% das etapas estavam finalizadas, conforme relatório técnico da própria Contraloría divulgado à imprensa colombiana.
Já o Gran Malecón del Mar, uma avenida litorânea de 8 quilômetros com ciclovias, praças e equipamentos comerciais, foi inaugurado parcialmente em 2022, mas nunca concluiu os trechos centrais. O custo inicial de 400 bilhões de pesos (360 milhões de reais) saltou para 550 bilhões, segundo auditoria do Departamento Nacional de Planeación, e o prazo final foi adiado três vezes.
Por que isso importa? Porque Cartagena é o principal polo turístico da Colômbia e recebeu mais de 3 milhões de visitantes em 2023, segundo o Ministério do Comércio. A erosão costeira já destruiu trechos de praias e ameaça o patrimônio histórico do centro amuralhado. A ineficiência estatal compromete não apenas a economia local — que depende do turismo — mas também a segurança de milhares de moradores que vivem em áreas de risco.
A investigação de Laverde acontece em meio a um escândalo maior: no início de 2025, a Procuraduría colombiana denunciou que a UNGRD teria usado contratos emergenciais para desviar recursos destinados a desastres naturais. Em declaração ao jornal El Tiempo, o próprio Laverde afirmou que “não há justificativa para que obras tão prioritárias estejam paradas enquanto o dinheiro do contribuinte é gasto em burocracia e honorários de consultorias”.
Análise FORTIS: Mais uma vez, o Estado latino-americano demonstra sua face mais perversa. O contribuinte colombiano paga impostos elevados — a carga tributária na Colômbia é de 28% do PIB, segundo a OCDE — e recebe obras inacabadas, superfaturadas ou simplesmente abandonadas. O padrão é conhecido: licitações direcionadas, aditivos contratuais que explodem o orçamento, fiscalização fraca e ninguém vai para a cadeia.
Do ponto de vista liberal-conservador, o caso reforça a tese de que o Estado não é capaz de gerir grandes projetos de infraestrutura com eficiência. A solução não é aumentar a arrecadação — a Colômbia já tributa demais —, mas sim abrir espaço para parcerias público-privadas com contratos rígidos, transparência real e responsabilização penal dos gestores. Enquanto isso, pequenos empresários do setor de turismo em Cartagena pagam a conta: hotéis com lotação reduzida pela erosão, quiosques fechados, empregos perdidos.
Contraponto: A Alcaldía de Cartagena, em nota, defendeu as obras, afirmando que “os atrasos são devidos a condições climáticas adversas e à complexidade técnica dos projetos”. Também disse que “a Contraloría tem autonomia para fiscalizar, mas confiamos na lisura dos processos”. A UNGRD não se manifestou até o fechamento desta edição. Não há, por ora, provas conclusivas de corrupção, mas os números falam por si: 62% das obras de proteção costeira ainda não saíram do papel, e o Gran Malecón custa 37,5% a mais do que o orçado inicialmente.
Por Renan Filho · 2026-09-24