A denúncia viralizou nas redes sociais na última semana e expôs uma ferida que o governo colombiano insiste em ignorar: em vastas regiões do país, a guerrilha não é apenas um grupo armado — é a autoridade de fato, e a escola pública, em vez de resistir, tornou-se instrumento de doutrinação.
Segundo relatos de pais e moradores de uma vereda do Catatumbo, a professora do 4º e 5º ano do ensino fundamental pediu que as crianças desenhassem as bandeiras das Farc e do ELN como parte de uma atividade pedagógica. A informação foi divulgada inicialmente por um líder comunitário em publicação nas redes sociais, com fotos dos cadernos dos alunos.
O Catatumbo é uma das regiões mais violentas e abandonadas da Colômbia, na fronteira com a Venezuela, controlada em grande parte por grupos armados ilegais, incluindo o ELN e dissidências das Farc. A presença do Estado é mínima, e a população vive sob extorsão, recrutamento forçado e ameaças constantes.
A reação da comunidade foi imediata: pais protestaram, alguns tiraram os filhos da escola, e o caso chegou à Secretaria de Educação de Norte de Santander. Até o fechamento desta edição, não houve pronunciamento oficial da secretaria sobre o caso, e a Prefeitura local limitou-se a afirmar, em nota, que abriria uma investigação.
A professora, cujo nome não foi divulgado, teria justificado a atividade como uma forma de 'ensinar a realidade da região' e 'promover o diálogo sobre o conflito'. Em nenhum momento, segundo relatos, houve contextualização crítica ou menção às vítimas da guerrilha — sequestros, assassinatos, deslocamentos forçados.
Para a FORTIS, o episódio é a face mais explícita de um problema estrutural: a ausência do Estado colombiano em vastas áreas do território nacional. Onde o governo não chega com escolas, estradas e segurança, a guerrilha preenche o vácuo — e a escola pública, que deveria ser instrumento de emancipação, torna-se ferramenta de legitimação do terror.
A atividade não foi um ato isolado de uma professora 'mal intencionada'. Ela reflete uma lógica perversa de sobrevivência em zonas onde a guerrilha é a autoridade real. Mas isso não a torna aceitável. Ao contrário: expõe a urgência de uma política de Estado que leve a Colômbia a retomar o controle efetivo de seu território.
A esquerda colombiana, incluindo setores do governo Petro, tende a minimizar casos como este, classificando-os como 'manifestações culturais' ou 'tentativas de entender o conflito'. No entanto, dados oficiais do Observatório de Direitos Humanos da Colômbia mostram que o Catatumbo concentra uma das maiores taxas de homicídio e deslocamento forçado do país — realidades que não podem ser ensinadas como 'normalidade'.
A FORTIS não defende censura a professores, mas exige responsabilidade. Ensinar a história do conflito é necessário; glorificar seus algozes é cumplicidade. A atividade em questão não incluiu nenhuma referência às vítimas, nenhum debate sobre o caráter criminoso das Farc e do ELN, nenhuma discussão sobre os Acordos de Paz e seus fracassos. Foi, na prática, um ato de propaganda.
O caso também escancara o cinismo de parte da intelectualidade colombiana, que trata a guerrilha como 'interlocutor político' enquanto ela segue recrutando crianças, plantando minas e extorquindo camponeses. Se a escola não consegue ensinar que matar, sequestrar e traficar é crime, o que ela está ensinando?
A resposta das autoridades será o teste decisivo. Se a professora for punida, o Estado envia um sinal de que a lei ainda vale. Se o caso for abafado, ficará claro que o governo prefere agradar a guerrilha a proteger as crianças. A comunidade local, enquanto isso, segue refém de uma realidade que o Estado não quer — ou não consegue — mudar.
A FORTIS acredita que a educação deve formar cidadãos livres, críticos e capazes de reconhecer o valor da democracia e do Estado de Direito. O que ocorreu no Catatumbo é o oposto disso: é a transformação da sala de aula em trincheira ideológica de grupos que vivem do crime. E isso não pode ser tratado com indiferença.
O caso deve servir de alerta para toda a América Latina, onde o Estado mínimo é confundido com Estado ausente. Não se trata de defender um Estado gigante e ineficiente, mas de garantir que o Estado cumpra suas funções essenciais — segurança, justiça e educação — e não delegue essas funções a bandidos.
Enquanto isso, as crianças do Catatumbo continuam crescendo sob a sombra da guerrilha, aprendendo a desenhar as bandeiras de quem as oprime, em vez de aprender a ler o mundo e a transformá-lo. Essa é a verdadeira tragédia colombiana, e a FORTIS não vai se calar diante dela.
Contraponto: a Secretaria de Educação de Norte de Santander pode argumentar que a atividade fazia parte de um projeto pedagógico sobre 'conflito armado' e que a professora não teve intenção de fazer apologia. No entanto, a ausência de contextualização crítica e a falta de material sobre as vítimas tornam a justificativa frágil. Em países democráticos, ensina-se a história do Holocausto sem pedir que crianças desenhem suásticas.
Por Renan Filho · 2026-09-23