A prisão de María Zenaida López, ocorrida no bairro San Joaquín, em Pereira, na região cafeeira da Colômbia, trouxe à tona um método de atuação que misturava técnicas de engenharia social com logística criminosa. De acordo com o relatório da Sijín (Seccional de Investigación Criminal), a suspeita agia preferencialmente em condomínios residenciais e casas de alto padrão, onde a vigilância eletrônica e portarias são comuns.
O diferencial do grupo liderado por López era a fase de prospecção. Ela se apresentava como representante de empresas de serviços públicos — água, luz ou gás — ou como agente de saúde pública. Com documentos falsificados e uniformes improvisados, mas visualmente convincentes, ela batia nas portas das vítimas. Uma vez dentro, estabelecia conversas sobre rotinas da família, horários de trabalho e sistemas de alarme. Em paralelo, anotava detalhes sobre câmeras de segurança, portas de aço e cães de guarda.
Em depoimento à polícia, uma das vítimas, o comerciante Juan Pablo Herrera, de 45 anos, afirmou: “Ela foi educada, parecia uma funcionária da EPM. Mostrou um crachá, falou sobre vazamentos e pediu para ver o quadro de luz. Em menos de 10 minutos, já sabia que eu viajava todo fim de semana. Uma semana depois, arrombaram a casa e levaram tudo.” O caso de Herrera é recorrente: os furtos ocorriam sempre em janelas de ausência, geralmente nos fins de semana ou feriados.
A inteligência policial identificou que López atuava como “olheira” e também como “fachada”. Ela raramente participava dos arrombamentos físicos, mas fornecia os mapas de acesso, horários de menor movimento e até mesmo as senhas de Wi-Fi, que permitiam aos comparsas desativar remotamente câmeras IP conectadas à internet doméstica. A quadrilha contava com ao menos quatro homens, todos já identificados e procurados.
Até o momento, a polícia confirmou 27 ocorrências em Pereira, Dosquebradas e Santa Rosa de Cabal, com prejuízo total estimado em 1,2 bilhão de pesos colombianos (cerca de R$ 1,5 milhão). Os itens roubados incluem joias, relógios, computadores, armas registradas e, em dois casos, veículos que estavam nas garagens. A maioria dos bens ainda não foi recuperada.
Análise FORTIS
A captura de ‘La Zenaida’ expõe uma fragilidade que o liberal-conservadorismo já aponta há décadas: o excesso de confiança no Estado como garantidor da segurança privada. Em um país onde a burocracia para contratar seguranças particulares é alta e o custo de sistemas de vigilância ainda é elevado para a classe média, criminosos encontram terreno fértil para explorar a boa-fé das pessoas.
A saída não é pedir mais policiamento nas ruas — isso apenas trata o sintoma. A solução estrutural passa por desregulamentação do mercado de segurança privada, estímulo fiscal para aquisição de equipamentos de monitoramento e simplificação dos registros de armas para cidadãos habilitados. Quando o Estado reduz sua presença nas áreas urbanas, o cidadão precisa ter liberdade para se proteger sem amarras burocráticas.
Além disso, a engenharia social utilizada por López mostra que a tecnologia, sozinha, não resolve. Campanhas de conscientização promovidas por associações de moradores e empresas de segurança têm mais eficácia do que programas governamentais genéricos. É preciso ensinar o cidadão a desconfiar — e a se proteger —, e não esperar que um policial esteja em cada esquina.
Por fim, chama a atenção a sofisticação logística do grupo. O uso de Wi-Fi doméstico para desativar câmeras é um alerta para que fabricantes e provedores de internet reforcem a segurança padrão dos roteadores. O mercado livre, com concorrência real, tende a resolver isso mais rápido do que qualquer regulamentação estatal.
**P: Quem é ‘La Zenaida’ e por que ela foi presa?** R: María Zenaida López, de 58 anos, foi presa em Pereira sob suspeita de integrar uma quadrilha de furtos residenciais. Ela atuava como “olheira”, obtendo informações sobre rotinas e sistemas de segurança das vítimas.
**P: Qual era o modus operandi?** R: Ela se passava por funcionária de empresas de serviços públicos para entrar nas residências, colhia dados sobre horários e alarmes, e repassava as informações para os comparsas executarem os roubos.
**P: Quantas vítimas foram identificadas?** R: Até o momento, 27 vítimas foram confirmadas em Pereira, Dosquebradas e Santa Rosa de Cabal.
**P: Qual o valor total dos prejuízos?** R: Estima-se 1,2 bilhão de pesos colombianos, o equivalente a cerca de R$ 1,5 milhão.
**P: A quadrilha foi totalmente desmantelada?** R: Não. López está presa, mas quatro comparsas seguem foragidos. A polícia continua as investigações.
**P: O que o cidadão pode fazer para se proteger?** R: Verificar sempre o crachá do visitante, confirmar com a empresa se há realmente uma visita agendada, e jamais permitir que estranhos circulem livremente pela casa. Sistemas de câmeras com gravação em nuvem e sensores de porta são recomendados.
Por Renan Filho · 2026-09-26