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Economia

Cali recebe cinco ônibus articulados 100% elétricos com portas USB: modernização do MIO ou custo sem retorno?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

A chegada dos primeiros ônibus articulados elétricos ao sistema MIO de Cali, na Colômbia, promete reduzir emissões e melhorar a experiência do usuário. Porém, o alto custo de aquisição e a infraestrutura de recarga ainda levantam dúvidas sobre a viabilidade fiscal do projeto.

Cali, a terceira maior cidade da Colômbia, deu um passo ousado na modernização de seu sistema de transporte público. Nesta semana, o Masivo Integrado de Occidente (MIO) recebeu os cinco primeiros ônibus articulados de sua frota que são 100% elétricos, equipados com portas USB para carregamento de celulares e outros dispositivos. O anúncio foi feito pela administração municipal em publicação nas redes sociais, exaltando a entrada desses veículos como um marco rumo à descarbonização do transporte urbano.

Os novos ônibus, fabricados na China, têm capacidade para 160 passageiros e autonomia declarada de 250 quilômetros. A promessa é atender as linhas de maior demanda, substituindo gradualmente os tradicionais veículos a diesel que ainda compõem a maior parte da frota. Segundo a prefeitura, esses ônibus são parte de um plano piloto que, se bem-sucedido, será expandido para outros corredores do sistema.

Porém, o passo é tímido. O MIO transporta cerca de 600 mil passageiros por dia em uma frota de mais de mil veículos, majoritariamente movidos a combustão. Cinco ônibus elétricos representam menos de 0,5% do total. A questão, portanto, não é se a tecnologia é desejável, mas se o investimento bilionário necessário para substituir toda a frota será acompanhado de ganhos reais de eficiência e de uma redução proporcional de custos.

O custo unitário de um ônibus articulado elétrico gira em torno de US$ 800 mil, contra cerca de US$ 400 mil de um diesel equivalente. Ou seja, o valor investido nos cinco veículos poderia ter adquirido dez ônibus convencionais. A prefeitura defende que o custo operacional ao longo da vida útil é menor, graças à economia com combustível e manutenção. Dados de experiências em cidades como Bogotá e Medellín mostram que a operação elétrica pode ser até 30% mais barata em custos variáveis, mas a depreciação e o custo de capital elevam o total.

A infraestrutura de recarga é outro ponto crítico. Cali ainda não possui um parque de carregamento rápido nas estações ou terminais. A energia necessária para abastecer esses ônibus será fornecida pela rede elétrica local, que historicamente já sofre com sobrecarga em períodos de alta demanda. Sem um plano sólido de expansão da capacidade, os ônibus podem ficar parados mais tempo do que o previsto, reduzindo a disponibilidade e agravando a lotação nas horas de pico.

Para o FORTIS NEWS, há aspectos claramente positivos: a entrada de ônibus elétricos reduz emissões locais, melhora a qualidade do ar e oferece mais conforto aos usuários, como as portas USB — um diferencial que atende à necessidade moderna de conectividade. A iniciativa sinaliza que a gestão municipal está atenta a tendências globais de mobilidade sustentável. No entanto, a adoção de tecnologia não pode ser feita sem uma análise fria de custo-benefício.

O transporte público em toda a América Latina é historicamente subsidiado, e o dinheiro do contribuinte precisa ser usado de forma eficaz. Em vez de espalhar alguns poucos ônibus elétricos em meio a uma frota majoritariamente obsoleta, a prefeitura deveria ter priorizado um plano consistente de renovação, com metas claras de redução de emissões e de melhoria do serviço, avaliando o custo por passageiro transportado e o impacto fiscal de longo prazo.

Além disso, não se pode ignorar que a compra de veículos chineses dependentes de baterias importadas aumenta a vulnerabilidade externa. Enquanto países como Colômbia e Brasil não desenvolvem uma indústria nacional de componentes elétricos e baterias, cada ônibus elétrico representa uma saída de divisas e uma dependência estratégica.

Um contraponto necessário vem da academia e de ONGs ambientais: o cálculo de custos não deve ignorar os benefícios sociais e de saúde pública. A redução de poluentes locais pode gerar economia de milhões na área de saúde — mas esse argumento é válido apenas se a substituição for em escala, não em cinco unidades simbólicas.

A experiência de outras cidades colombianas mostra resultados mistos. Bogotá, com seu sistema TransMilenio, já opera centenas de ônibus elétricos em seus corredores, com índices de confiabilidade razoáveis, mas ainda enfrenta problemas de integração tarifária e obsolescência de infraestrutura. Medellín também investiu em metrô e bus rapid, mas o custo por quilômetro é alto.

Portanto, a decisão de Cali é um teste. Se for bem planejada, pode servir de modelo para outras cidades de porte médio no continente. Se mal executada, será apenas mais um exemplo de capital público gasto em projetos de fachada. O FORTIS NEWS advoga por responsabilidade fiscal e pelo princípio de que o estado deve entregar serviços eficientes sem comprometer as contas de futuras gerações. Nem toda novidade é necessariamente boa, nem toda tradição deve persistir. Mas toda decisão de gasto público deve ser submetida ao crivo da transparência e do custo-benefício.

O cidadão de Cali, assim como o de qualquer cidade brasileira que enfrenta problemas de mobilidade, espera um transporte que funcione, tenha preço justo e não detone o orçamento público. O desafio é grande, e a introdução de cinco ônibus elétricos, por mais bem-vinda que seja, ainda é um grão de areia no deserto.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.