FORTIS
← FORTIS
Economia

Barranquilla vai gastar R$ 66 bilhões para subsidiar água de pobres — e o contribuinte paga a conta

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

A prefeitura de Barranquilla anunciou que destinará 66.209 milhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 72 milhões) para subsidiar os primeiros 6 metros cúbicos de água potável para moradores dos estratos 1 e 2. A medida, embora bem-intencionada, levanta questões sobre eficiência fiscal e dependência estatal.

A prefeitura de Barranquilla, na Colômbia, anunciou nesta quarta-feira (24) um novo programa de subsídio direto à conta de água para famílias de baixa renda. Serão destinados 66.209 milhões de pesos colombianos — o equivalente a cerca de R$ 72 milhões, ou US$ 14,5 milhões — para cobrir integralmente os primeiros 6 metros cúbicos de consumo mensal de água potável para os moradores dos estratos socioeconômicos 1 (baixo-baixo) e 2 (baixo).

A informação foi divulgada em nota oficial da Alcaldía de Barranquilla, assinada pelo prefeito Alejandro Char, e repercutida por veículos locais como El Heraldo e a emissora Caracol Radio. Segundo o comunicado, o benefício deve alcançar cerca de 420 mil famílias, o que representa aproximadamente 1,5 milhão de pessoas.

A justificativa do governo local é de que a medida visa garantir o acesso à água potável como direito fundamental, especialmente em um contexto de inflação elevada e aumento do custo de vida. O discurso oficial repete a cartilha da esquerda latino-americana: Estado provedor, subsídio como solução, sem questionar as causas estruturais do problema.

**Por que isso importa?**

A decisão de Barranquilla é mais um capítulo na longa história de intervenção estatal nos preços de serviços públicos na América Latina. Subsidiar o consumo básico de água pode parecer nobre, mas esconde armadilhas fiscais e distorções de mercado.

Em primeiro lugar, o custo total do programa representa cerca de 0,3% do orçamento anual do Distrito de Barranquilla para 2026, estimado em 24 trilhões de pesos colombianos (aproximadamente R$ 26 bilhões). Embora pareça pequeno, esse valor poderia ser usado para investimentos estruturantes, como ampliação da rede de distribuição, tratamento de esgoto ou redução de perdas físicas — que hoje chegam a 40% do volume total distribuído na cidade, segundo dados da empresa estatal Triple A.

Em segundo lugar, o subsídio é universal dentro dos estratos 1 e 2, independentemente da real necessidade. Ou seja, uma família que consome exatos 6 metros cúbicos por mês recebe o mesmo benefício que outra que poderia pagar tarifa cheia. Não há qualquer mecanismo de focalização por renda per capita, condição social ou número de dependentes.

**Análise FORTIS: a lógica do Estado assistencialista**

O liberal-conservadorismo não é contra ajudar os pobres. A questão é como fazer isso sem criar dependência, perpetuar a ineficiência estatal e transferir renda de quem produz para quem consome sem critério. Subsidiar a conta de água de todos os moradores dos estratos 1 e 2 — sem contrapartidas como regularização de ligações clandestinas, educação para o consumo consciente ou metas de redução de perdas — é apenas maquiar o problema fiscal.

Vale lembrar que a Colômbia, assim como o Brasil, tem um histórico de gastos públicos crescentes com subsídios mal focalizados. Dados do Departamento Nacional de Planeación (DNP) mostram que os subsídios a serviços públicos na Colômbia consomem anualmente cerca de 2,5% do PIB, com resultados questionáveis em termos de redução da desigualdade.

Além disso, o programa não enfrenta a raiz do problema: o alto custo da água em Barranquilla, que decorre em parte da estrutura tributária e regulatória do setor. A tarifa atual para os estratos mais altos já carrega subsídios cruzados para os mais baixos. Agora, a prefeitura acrescenta mais uma camada de subsídio direto, o que tende a pressionar ainda mais as tarifas dos estratos médios e altos no futuro.

**Contraponto: a visão oficial**

A prefeitura de Barranquilla, em nota, afirma que a medida é temporária e que será revista em 12 meses. Também assegura que os recursos vêm do orçamento distrital, sem repasse para as tarifas dos demais estratos. No entanto, economicamente, não existe almoço grátis: todo subsídio é pago por alguém — ou por aumento de impostos, ou por endividamento público, ou por cortes em outras áreas.

Críticos do programa, como o economista Juan Carlos Echeverry, ex-diretor do DNP, já manifestaram publicamente, em entrevista à Rádio W, que a medida é “populista e insustentável no longo prazo”. Ele alerta que, sem reformas estruturais no setor de saneamento, os subsídios apenas adiam o ajuste necessário.

**1. O programa é realmente para todos os moradores dos estratos 1 e 2?** Sim. A prefeitura não exige comprovação de renda ou cadastro em programas sociais. Basta que a residência esteja classificada no estrato 1 ou 2 pelo Sisbén (sistema de classificação socioeconômica colombiano). Isso inclui desde famílias extremamente pobres até pequenos comerciantes formais que moram em áreas classificadas como estrato 2.

**2. Como o FORTIS NEWS propõe resolver o problema do acesso à água sem subsídios?** A solução liberal-conservadora passa por três eixos: (1) redução da carga tributária sobre serviços públicos essenciais, o que barateia a tarifa para todos; (2) concessão ou privatização da gestão de água com metas claras de redução de perdas e melhoria da eficiência, como feito com sucesso em cidades como Bogotá e Medellín (com modelos de empresa mista); (3) criação de um voucher temporário e focalizado para famílias comprovadamente em situação de vulnerabilidade, atrelado a contrapartidas como matrícula escolar e vacinação infantil. Assim, o benefício chega a quem realmente precisa, sem criar distorções permanentes no mercado.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.